Uma pesquisa realizada em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador, acompanhou por quatro anos 348 crianças e adolescentes para compreender os efeitos do vírus chikungunya nesse público. O estudo, coordenado pela pesquisadora Viviane Boaventura, da Fiocruz Bahia, foi publicado na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases no dia 25 de setembro de 2025. O trabalho foi conduzido durante o andamento de um ensaio clínico de fase III da vacina Butantan-Dengue e teve como objetivo avaliar a taxa de infecções assintomáticas, a resposta imunológica dos participantes e a incidência de dores nas articulações após a infecção.
A chikungunya é uma doença viral transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo responsável pela disseminação dos vírus da dengue e zika. A doença costuma causar febre alta e dores intensas nas articulações, com sintomas que podem persistir após a fase aguda da infecção. Embora o impacto da chikungunya em adultos seja mais conhecido, pouco se sabia sobre como ela afeta crianças e adolescentes. Para preencher essa lacuna, os pesquisadores monitoraram participantes com idades entre 2 e 17 anos, realizando coletas periódicas de sangue e acompanhando sintomas em consultas médicas regulares, sempre que os indivíduos apresentavam febre ou outros sinais clínicos.
As amostras coletadas foram testadas por RT-PCR (que detecta o material genético dos vírus), sorologia (Elisa) e ensaio de neutralização viral, para avaliar a presença de anticorpos protetores. Além disso, os casos suspeitos de infecção foram investigados por meio de questionários estruturados, que permitiram registrar sintomas e sinais clínicos com mais precisão. A pesquisa trouxe à tona dados cruciais sobre o impacto da chikungunya nesse grupo etário, com destaque para a intensidade dos sintomas e a duração da resposta imunológica após a infecção.
Dos 348 participantes, 23 já apresentavam anticorpos IgG protetores contra o vírus da chikungunya no início do estudo. Durante o acompanhamento, 17% dos 311 participantes que completaram o estudo testaram positivo para o vírus. Desses, 25 casos foram confirmados por RT-PCR, enquanto outros 28 testes deram positivo por sorologia. Vale ressaltar que 9,4% dos casos positivos foram assintomáticos, ou seja, as crianças e adolescentes não apresentaram sintomas clínicos mesmo após a infecção. No entanto, 12% dos casos positivos desenvolveram artralgia crônica, com dores nas articulações que persistiram por meses e comprometeram a realização de atividades diárias.
A pesquisa revelou que, apesar de surtos locais durante o período de monitoramento, apenas 20% dos participantes foram expostos ao vírus, levantando questões sobre a vulnerabilidade dessa população e a necessidade urgente de estratégias de prevenção mais eficazes. A taxa de soroconversão entre os casos positivos foi de 84%, o que indica que a maioria desenvolveu anticorpos após a infecção, embora uma parcela significativa não tenha apresentado resposta imunológica detectável.
Os pesquisadores concluíram que, em crianças e adolescentes, a maioria das infecções por chikungunya é sintomática, o que implica que a doença pode causar danos significativos nesse grupo etário. Além disso, as sequelas, como dores nas articulações persistentes, reforçam a necessidade de uma vigilância epidemiológica constante e de intervenções específicas para proteger os mais jovens contra os efeitos do vírus.
A pesquisa destaca a importância de fortalecer as estratégias de prevenção, especialmente em áreas com altos índices de transmissão do Aedes aegypti, e reforça o papel das vacinas e do monitoramento contínuo da saúde pública como ferramentas essenciais na luta contra doenças virais como a chikungunya.
Da redação do Jornal Panorama
Com informações e imagem: Jamile Araújo/Agência Fiocruz
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