Hoje sinônimo de alegria e identidade, o Carnaval nem sempre foi bem-vindo no Brasil. Antes de se tornar o maior espetáculo da Terra, a celebração enfrentou séculos de proibição, repressão e estigma, sendo tratada pelas autoridades como um grave problema de segurança pública.
O “Perigo” do Entrudo
Entre o século XIX e o início do XX, a grande estrela das ruas era o entrudo. A brincadeira, que consistia em arremessar água, farinha e outros líquidos nos foliões, era vista pela elite como uma prática violenta, anti-higiênica e desordeira. Para conter o povo, governos municipais editaram leis severas: quem ousasse brincar o entrudo corria o risco de pagar multas pesadas ou acabar na prisão.
Repressão e Resistência
Mesmo com o surgimento dos primeiros desfiles organizados, a vigilância não cessou. O preconceito tinha alvo certo: blocos de rua e manifestações em comunidades negras eram os principais alvos da polícia. Sob o pretexto de combater o barulho ou o comportamento “inadequado”, o Estado tentava sufocar as raízes populares do Carnaval para adequá-lo aos padrões refinados da época.
Do Conflito à Institucionalização
A virada de chave ocorreu ao longo do século XX. A organização das escolas de samba e a percepção do potencial turístico da festa forçaram o poder público a mudar de estratégia. O que antes era combatido passou a ser institucionalizado e, gradualmente, promovido como o maior símbolo da identidade brasileira.
Patrimônio da Diversidade
Atualmente, o cenário é oposto: o Carnaval é um motor econômico vital e um pilar cultural inquestionável. A trajetória da folia no Brasil é uma prova de resistência; o que antes era visto como ameaça, hoje é reconhecido como uma expressão legítima da alma e da diversidade do nosso povo.
Por: Neil Sallum
Fontes: Fundação Biblioteca Nacional – Registros históricos sobre o entrudo e o Carnaval / CPDOC/FGV – Estudos sobre cultura popular e repressão no Brasil / Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)
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