A recente escalada do conflito entre Israel e Irã, que culminou em confrontos militares na madrugada de quinta-feira (12/06), é apenas mais um capítulo de uma longa e complexa rivalidade que remonta a várias décadas. Este embate não é apenas uma disputa entre dois países, mas também reflete uma luta geopolítica que envolve uma teia de questões históricas, religiosas e ideológicas. Para compreender as motivações que levaram ao novo ciclo de violência, é necessário olhar para a história do Oriente Médio, onde os interesses de potências regionais e internacionais estão entrelaçados em uma disputa de poder que afeta a segurança global.
O histórico das tensões entre Israel e Irã remonta a 1979, quando a Revolução Islâmica iraniana, liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, derrubou o regime pró-ocidental do xá Mohammad Reza Pahlavi. Antes da revolução, o Irã era um aliado estratégico de Israel, mas com a ascensão do regime islâmico, as relações entre os dois países se deterioraram drasticamente. O novo governo iraniano passou a adotar uma postura hostil em relação a Israel, considerando o Estado judeu um “inimigo” devido ao seu apoio aos Estados Unidos e sua presença na região. Desde então, o Irã tem sido um dos maiores críticos do Estado de Israel, e, ao longo dos anos, suas declarações públicas sobre a “destruição” de Israel alimentaram a desconfiança mútua.
Outro ponto crucial para entender o conflito é o papel do Irã na formação de uma aliança com diversos grupos militantes xiitas no Oriente Médio, como o Hezbollah no Líbano e as milícias iraquianas apoiadas por Teerã. Israel, por sua vez, tem se mostrado extremamente preocupado com a crescente influência do Irã na região, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento de capacidades nucleares por parte de Teerã. O temor de que o Irã possa desenvolver armas nucleares e, eventualmente, usá-las contra Israel é uma das principais fontes de tensão. Israel, que não reconhece o Irã como uma potência nuclear legítima, tem constantemente ameaçado tomar medidas para impedir que o país persa consiga tais capacidades, o que tem gerado uma série de confrontos indiretos entre os dois países, como ataques cibernéticos, assassinatos de cientistas nucleares iranianos e incursões aéreos em instalações iranianas na Síria.
Em 2015, o acordo nuclear entre o Irã e as potências mundiais (JCPOA), mediado pelos Estados Unidos, trouxe uma trégua temporária, mas o rompimento do pacto em 2018, quando o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, retirou o país do acordo, reacendeu as hostilidades. A decisão de Trump foi amplamente apoiada por Israel, mas criticada por muitos aliados europeus. A partir de então, o Irã começou a retomar suas atividades nucleares, o que aumentou ainda mais a tensão na região. O atual governo de Ebrahim Raisi, que assumiu a presidência do Irã em 2021, tem seguido uma política de resistência a qualquer pressão externa, mantendo firme o desenvolvimento de seu programa nuclear, algo que, para Israel, representa uma ameaça existencial.
A guerra recente, iniciada nesta semana, parece ter sido impulsionada por uma combinação de fatores. O Irã, com seu apoio a milícias em território sírio e suas atividades de construção de infraestrutura militar em áreas próximas à fronteira com Israel, provocou uma resposta de Tel Aviv, que tem intensificado os ataques aéreos na Síria nos últimos meses. Em paralelo, o Irã tem reagido com ataques de retaliação, muitas vezes em território israelense ou em bases de forças ocidentais. Esse ciclo de represálias se tornou cada vez mais perigoso, com ambos os lados trocando ameaças de represálias e escalando os confrontos. No entanto, o estopim para o conflito atual pode estar relacionado a um aumento nas operações de espionagem e sabotagem de ambos os lados, que culminaram em uma série de ataques em solo israelense e no território iraniano.
Por trás dessa escalada também estão as disputas mais amplas envolvendo a hegemonia regional. O Irã tem buscado estabelecer uma influência crescente no Oriente Médio, particularmente através do apoio a governos e grupos militantes alinhados com seus interesses xiitas. Já Israel, com sua aliança estratégica com os Estados Unidos e com a normalização das relações com vários países árabes, como os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein, tem procurado limitar a expansão do Irã na região. A rivalidade entre os dois países vai além de uma simples disputa de poder, sendo também alimentada por diferenças religiosas profundas: o Irã, um estado muçulmano xiita, e Israel, um estado judeu.
Com o recente aumento de tensões e a intensificação das hostilidades, o futuro da região parece cada vez mais incerto. Para Israel, a necessidade de proteger sua segurança nacional permanece uma prioridade, enquanto o Irã vê seu programa nuclear como essencial para sua soberania e para a afirmação de seu poder regional. O que começou como uma disputa geopolítica agora se transformou em uma guerra aberta, cujas repercussões não só afetam o Oriente Médio, mas têm implicações diretas para a segurança global.
As consequências desse conflito ainda são imprevisíveis, mas uma coisa é certa: enquanto o acirramento das hostilidades continuar, o Oriente Médio permanecerá como um dos centros de tensão mais críticos do mundo.
Por Eduardo Souza
Imagem: Reprodução Redes Sociais
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