Antônio não tirava Celeste da cabeça, vivia com uma boa lembrança dela, mulher até então incrível e diferenciada, dinâmica, educada, sobretudo sensual, naturalmente feminina. Ela era o máximo.
Mas algo passou a incomodá-lo nos últimos tempos. Embora fosse maduro o suficiente para compreender que nunca foi necessário a uma mulher ser também uma boa pessoa para que fosse adorada por um bom homem, até então não enxergava defeitos nela.
Aquela coisa meio platônica, sempre revivendo bons momentos ia-se evaporando, como diziam os antigos: “deu mau cheiro!” O momento era diferente, parecia haver um certo ressentimento em seus devaneios e ele sabia o motivo.
Nos últimos dias, ao levar uma carta na qual novamente se declarava e confirmava suas intenções, deu a ela também um presente. Um vestido bonito que apesar de não ser chique ou requintado estava longe de ser uma peça comum, sobretudo no corpo de quem, pela graça natural que trazia em si. Uma roupa como aquela numa fêmea esguia como Celeste seria uma pintura.
É bom esclarecer que o fato de Celeste ser bonita e ter todas as qualidades descritas no primeiro parágrafo não faz certa a suposição de que também tivesse bom gosto.
Antônio a viu, cruzou ou esteve com ela uma, duas, três, quatro, cinco, seis… umas tantas vezes… e Celeste sempre com aquelas roupas de mais de lustro: os mesmos vestidos, calças, bermudas, tão batidos, quase disformes, tão feias e velhas que certo dia o cara perguntou em tom afirmativo:
_ Você tem um vestido tão bonito, por que não usa!?
_ Porque prefiro este!
Foi o que saiu da boca de Celeste, sem subterfúgios. Ora, poderia dizer que o que tinha em casa era novo e o estaria “poupando” para uma ocasião especial ou algo parecido, mas não disse. Não se deu ao trabalho de uma simples e educada desculpa, ainda que mentirosa.
Aquela resposta tão seca, estranha, mal conduzida e literalmente insólita o fez sobressaltar de seus profundos sentimentos que sempre nutrira pela dama, tão puros, cândidos e serenos.
Lembrou-se perfeitamente do dia em que havia dado o presente: nenhum beijo, nenhum abraço, apenas conversas delicadas.
Antônio era um competente mestre de obras que já havia sido servente, ajudante de carpinteiro e pedreiro. Tê-lo na obra era uma segurança para o dono da construtora.
Chegou a pensar consigo, em voz alta, no último andar do prédio, olhando para o alto, quando levantou o capacete para enxugar o suor no rosto: _ Como uma pessoa pode ter um nome assim, Celeste, de celestial e ser tão má? Custava alguma coisa usar o vestido?
Viu no canto do andaime a ferramenta. Não gostava de deixar nada espalhado ao fim do expediente, lá pelas quatro da tarde; foi ele mesmo pegá-la, meio puto da vida. Ao se curvar, abaixando-se sem dobrar as pernas bateu com a orelha na ponta de uma tábua e se desequilibrou, caiu. Nessa longa queda só pôde ver o azul do céu, sem uma nuvem, absolutamente celeste. O óbito foi constatado de imediato.
No velório, após se certificar de que a mãe e a ex-mulher do velado não estavam presentes, Celeste apareceu com o vestido: linda, deslumbrante, suas belas curvas amenizavam e de certo modo desanuviavam o tom do ambiente, de profunda tristeza e perplexidade.
Um absoluto silêncio se fez quando ela entrou no recinto e postou-se ao lado do caixão, completamente desnorteada. Olhou fixamente para Antônio, fez o nome do pai, o acariciou e chorou copiosamente. Um rio de lágrimas lavou o rosto e a alma do falecido. Os amigos se entreolharam e disseram: que bom, ele morreu em paz.
Lúcio da Silva
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