Atualizada no dia 04 de dezembro de 2024, às 07:35.
Em 24 horas, dois acontecimentos graves envolvendo violência policial foram registrados em São Paulo. No primeiro, um policial militar (PM) jogou um homem de uma ponte, na Cidade Adhemar, na zona sul da capital. No outro caso, um PM, que estava de folga, matou, com tiros nas costas, um rapaz de 26 anos que havia furtado um mercado, no Jardim Prudência, também na zona sul.
No caso do homem jogado da ponte, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que dois sargentos e 11 cabos e soldados serão afastados das ruas até o fim das investigações. Todos pertencem ao 24º Batalhão da PM, em Diadema, na região metropolitana da capital. “A instituição repudia veementemente a conduta ilegal e instaurou um inquérito para apurar os fatos e responsabilizar todos os agentes. A Polícia Militar reitera seu compromisso com a legalidade e não tolera desvios de conduta”, comunicou, em nota, a secretaria.
O caso aconteceu na madrugada de segunda-feira (2/12) durante uma abordagem. Os policiais teriam dado ordem para que duas pessoas em uma motocicleta parassem para averiguação. Como a dupla se recusou a parar, iniciou-se uma perseguição na qual um rapaz foi detido e o outro, jogado da ponte.
Conforme o rapaz levado para a delegacia, o homem jogado da ponte estaria vivo, mas não foi localizado ainda pela Corregedoria da Polícia Militar. Todos os policiais usavam câmeras corporais, cujas imagens serão utilizadas nas averiguações sobre a ação.
O pai do jovem que foi lançado da ponte, relatou que seu filho se chama Marcelo, tem 25 anos, é entregador e não possui antecedentes criminais. Em entrevista, Antônio Donizete do Amaral afirmou que, apesar do ocorrido, o filho está bem, mas não conseguiu conversar com ele ainda. Ele destacou a indignação com o comportamento do policial e cobrou uma investigação rigorosa sobre o caso.
“Ele está bem, mas não conseguimos falar com ele. Isso é inadmissível, não pode acontecer. A polícia deve proteger a população, não agir dessa forma. Meu filho é trabalhador, sempre correu atrás do que é dele e não tem nenhum envolvimento com crime. Quero entender por que esse policial fez isso”, declarou o pai de Marcelo.
Uma testemunha, que preferiu não se identificar, contou que os policiais estavam no bairro para dispersar os frequentadores de um baile funk. Segundo ela, quando Marcelo passou pela região e viu os policiais, perdeu o controle da moto e caiu. Foi então que os agentes abordaram o jovem. A testemunha também afirmou que ela e uma amiga correram do local ao perceberem a situação.
Após o incidente, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), se manifestou nas redes sociais, condenando veementemente a ação do policial. Ele afirmou que policiais que “disparam pelas costas” ou “jogam alguém de uma ponte” não estão aptos a usar a farda e garantiu que o caso será investigado e que os responsáveis serão punidos com rigor.
O secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite (PL), também repudiou a conduta do policial. Em sua declaração, ele ressaltou que a Polícia Militar tem um legado a zelar e que não pode ser associada a práticas de violência sem justificativa. “A PM não deve atirar pelas costas em suspeitos sem risco à vida, nem arremessar pessoas de pontes. Esses atos não representam a instituição”, afirmou, prometendo severas punições.
O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, também se manifestou sobre o caso, considerando as imagens “estarrecedoras e absolutamente inadmissíveis”. Ele garantiu que o Ministério Público paulista está tratando o caso com seriedade, designando o Grupo de Atuação Especial de Segurança Pública (Gaesp) para acompanhar as investigações e punir exemplarmente os envolvidos.
Antes dessas declarações, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) já havia se manifestado, condenando o ato violento e afirmando que a Polícia Militar instaurou um inquérito policial militar (IPM) para apurar as circunstâncias da abordagem e responsabilizar os agentes envolvidos.
O caso segue em investigação e está gerando grande repercussão, com críticas à atuação do policial e a promessa de ações enérgicas por parte das autoridades.
Material de limpeza
No outro caso, Gabriel Renan da Silva Soares, de 26 anos, foi morto por 11 disparos feitos por um policial militar que estava de folga. Soares havia furtado produtos de limpeza em um supermercado no Jardim Prudência, escorregou na fuga e foi baleado. O PM Vinícius de Lima Britto alegou ter atirado em legítima defesa. Também neste caso, o policial foi afastado das funções até que as investigações sobre seu procedimento sejam concluídas.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou que parentes da vítima foram ouvidos e que diligências estão em andamento para identificar e qualificar a testemunha que esbarrou na vítima durante sua fuga do supermercado, momentos antes de ser atingido pelos tiros. A Polícia Militar acompanha as investigações, prestando apoio à Polícia Civil.
A nota diz ainda que, se as apurações apontarem para a responsabilização criminal do policial militar, medidas administrativas serão adotadas, incluindo a possibilidade de processo disciplinar que poderá resultar na sua exclusão da Instituição.
Ouvidoria
A Ouvidoria da Polícia de São Paulo também se manifestou e, em nota, criticou a conduta dos policiais e cobrou providências.
Os principais trechos da nota, assinada pelo ouvidor Claudio Silva, são os seguintes:
“O primeiro caso, já tratado por esta Ouvidoria, sobre a morte de Gabriel Renan da Silva Soares no estacionamento do Oxxo no Jardim Prudência, na Zona Sul da capital, em 3 de novembro, desmonta a versão oficial com os vídeos mostrando o jovem negro sendo executado com 11 tiros pelas costas por policial militar supostamente de folga, mas que evidentemente poderia estar ali em “bico” não oficial, o que é proibido. As investigações nos dirão o que o policial efetivamente fazia naquele local.”
“No segundo caso, imagens mostram um policial militar jogando um homem do alto de uma ponte na zona Sul em São Paulo na madrugada desta segunda-feira. Os demais PMs presentes na ocorrência, que poderiam atuar para que o inexplicável gesto não ocorresse, nada fazem, no entanto.”
“Os dois casos, com desfechos tristes e evitáveis, são eloquentes quanto ao descontrole da tropa, aliado à sensação de impunidade que reveste esses agentes – resta perguntar quem a outorgou, pois sabe-se que na PM a hierarquia é o principal dogma.”
Fonte: Agência Brasil
Foto: Secretaria de Segurança Pública de São Paulo