Uma pesquisa inédita realizada no Brasil identificou que o stealthing, prática em que um parceiro retira o preservativo sem consentimento durante a relação, afeta significativamente a saúde física e mental das vítimas. O levantamento ouviu quase 3 mil pessoas que sofreram essa violência, sendo a maioria mulheres, mas também homens, todos agredidos por indivíduos do sexo masculino. Em 10% dos casos, o agressor era o próprio marido da vítima.
O pesquisador Wendell Ferrari, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), destacou que a falta de compreensão sobre consentimento agrava a questão. Segundo ele, há estereótipos sobre violência sexual que dificultam o reconhecimento do stealthing como uma agressão, levando muitas vítimas a não denunciarem o ocorrido. O estudo aponta que 70% dos entrevistados nunca relataram o episódio a ninguém, e aqueles que buscaram ajuda enfrentaram descrédito em delegacias e unidades de saúde.
Além dos efeitos psicológicos, como medo de novos relacionamentos e impacto no dia a dia, quase 20% dos participantes relataram ter contraído infecções sexualmente transmissíveis após o episódio, incluindo casos de HIV/AIDS. Nove mulheres engravidaram como resultado da violência, e cinco recorreram ao aborto ilegal, mesmo com a interrupção da gravidez após abuso sexual sendo garantida pela legislação brasileira.
Embora não exista uma lei federal específica sobre stealthing, o Código Penal prevê sanções por violação sexual mediante fraude, e a Lei Maria da Penha condena a recusa ao uso de preservativo. Em março, uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo estabeleceu um importante precedente, determinando que o aborto legal seja realizado em casos de gravidez decorrente da prática.
O estudo reforça a necessidade de ampliar o debate sobre o consentimento e garantir políticas que protejam as vítimas desse tipo de violência, proporcionando amparo jurídico e social adequado.
Por Eduardo Souza
Com informações: Agência Brasil
Foto: Freepick/Imagem Ilustrativa
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