Eliene Lima – @elienelima.psi*
Recentemente, fui convidada a conversar com um grupo exclusivamente masculino sobre um tema complexo e, muitas vezes, silenciado: a autoestima do homem. Nesta ocasião, apliquei com esse público uma estratégia de interação que sempre uso em minhas palestras, que é a provocação de reflexões sobre o assunto em debate para uma busca conjunta por significados. E assim, antes de mergulhar nos impactos psicológicos à autoestima masculina, juntos, tentamos responder à pergunta que atravessa gerações: o que é, afinal, ser homem?
Entre os participantes havia a experiência dos mais velhos, com mais de 50 anos, e a inquietude dos mais jovens, abaixo dos 30, e todos que se manifestaram citaram algumas expressões socialmente muito conhecidas, tais como: ser provedor, trocar o chuveiro, trazer conforto pra família, ser pai. Propus, então, que olhássemos para trás: o que era ser homem na geração dos seus pais? A constatação não trouxe surpresas: pouquíssima coisa mudou.
A intenção desta reflexão era expor a força avassaladora dos padrões sociais que, sem que percebamos, repetimos. O que aprenderam sobre masculinidade é uma herança direta das crenças de seus pais e, inevitavelmente, está sendo transmitido aos seus filhos, alinhando de maneira dolorosa três gerações. A cultura de cada momento deixa suas marcas, claro, mas na fundação de valores e princípios, a influência familiar quase sempre se sobressai.
Compartilhamos, também, sobre seus sonhos e, principalmente, sobre as preocupações. A grande maioria confirmou: cuidar da família, garantindo-lhe bem-estar, é a prioridade máxima. Este ainda é o alicerce da sua identidade. Por isso, a chegada do Natal me fez pensar profundamente sobre o que significa para um pai falhar na função que a sociedade lhe impôs: não conseguir realizar os sonhos de seus filhos, materializados em presentes.
Dezembro é um mês que traz um grande teste ao provedor. Embora seja uma época vendida como de pura alegria, é comum o relato de uma depressão de fim de ano, de encontros familiares que não passam de uma maquiagem de bom convívio, e, para muitos homens, o sentimento dominante é a frustração. É a vergonha silenciosa de não ser o realizador de sonhos, de se sentir diminuído por uma conta bancária magra.
A verdade é que o presente material muitas vezes se torna uma desesperada forma de compensação pela ausência de um ano inteiro. Não uma ausência de afeto, mas uma ausência de tempo, imposta pela necessidade incessante de responder àquele aprendizado cultural: ao homem cabe o lugar de responsável por manter satisfeitas as necessidades de quem depende dele. E, sejamos sinceros, para muitos, manter os entes queridos nesta postura de dependência ainda é a única forma de se sentirem úteis, importantes e validados.
Há anos me dedico a estudar a paternidade e, diante dos relatos sobre o quão danosa é a ausência paterna para a formação psíquica dos filhos, percebo o Natal não como um festival de consumo, mas como uma poderosa chance de quebrar este ciclo. Que as festividades de fim de ano sejam o momento de uma aproximação real, de uma troca de presença que vale por uma vida, mais que de presentes, que serão esquecidos em janeiro. Afinal, mesmo depois que o embrulho se desfaz, é a memória do calor da mão do pai, do olhar atento e do tempo dedicado que permanece, construindo um vínculo que dinheiro nenhum pode comprar.
*Eliene Lima é psicóloga, autora do livro “Pelo olhar do meu pai”, palestrante e Tenente Coronel Veterana do Quadro de Oficiais de Saúde da PMMG.
www.elienelima.com.br
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