Após meio século ausente do Parque Estadual do Rio Doce, no Vale do Aço, em Minas Gerais, o mutum-do-bico-vermelho (Crax blumenbachii) voltou a habitar a floresta nativa onde antes era comum. A reintrodução da espécie, extinta localmente desde os anos 1970, é resultado do projeto “De Volta ao Lar”, conduzido pela Associação de Amigos do Parque (DuPERD) em parceria com o Instituto Estadual de Florestas (IEF).
Classificado como criticamente ameaçado de extinção, o mutum-do-bico-vermelho é uma ave endêmica da Mata Atlântica que exerce papel crucial na regeneração da floresta, por atuar como dispersora de sementes. A iniciativa marca um avanço na conservação da espécie e reforça a importância de projetos integrados entre ciência, poder público e comunidades.
“O objetivo principal é que o mutum volte a fazer parte do ecossistema e da cultura das populações locais”, afirma Gabriel Ávila, analista ambiental do IEF e coordenador do projeto. A ação envolve tanto o monitoramento das aves reintroduzidas quanto atividades educativas em escolas e comunidades rurais da região.
O projeto teve início nos anos 1990 com a Fundação Crax, pioneira na reprodução em cativeiro da espécie. Desde então, com apoio da empresa Cenibra, mais de 200 indivíduos foram soltos na natureza a partir da Fazenda Macedônia, uma reserva particular localizada em Ipaba (MG).
Em 2023, a iniciativa passou a concentrar esforços no Parque Estadual do Rio Doce, maior remanescente contínuo de Mata Atlântica em Minas. Cerca de 30 aves foram reintroduzidas na região da Ponte Perdida, área considerada prioritária por suas condições ambientais favoráveis à fixação da espécie.
“O mutum é um plantador de florestas. Ao trazê-lo de volta, beneficiamos todo o ecossistema”, afirma o biólogo e consultor Luiz Eduardo Reis. A observação de aves não anilhadas — nascidas na natureza — em um raio superior a 20 quilômetros do ponto de soltura indica que o processo de readaptação está em curso. Um casal com filhote também foi avistado, sinalizando sucesso reprodutivo da espécie em ambiente natural.
A presença da ave tem sido notada por moradores de comunidades vizinhas ao parque, que relatam avistamentos em áreas verdes. Para os coordenadores, o engajamento da população local é um dos principais indicadores do êxito do projeto. “Isso mostra que o projeto tem impacto não só ecológico, mas também social”, ressalta Reis.
Com financiamento garantido pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) até o fim de 2025, o “De Volta ao Lar” conta com uma rede de parceiros nacionais e internacionais, entre eles a Cenibra, a Sociedade Zoológica de Londres (ZSL), o Instituto Nacional da Mata Atlântica e instituições de ensino da região.
As ações educativas incluem oficinas com jovens e produtores rurais, além da produção de materiais didáticos, como gibis sobre a fauna da Mata Atlântica. A proposta é fortalecer o vínculo entre as novas gerações e a biodiversidade local, promovendo uma consciência ambiental que ultrapasse o contexto escolar.
Criado em 1944, o Parque Estadual do Rio Doce abriga mais de 36 mil hectares de floresta tropical, sendo um dos mais antigos e importantes refúgios da Mata Atlântica em Minas Gerais. A reintrodução do mutum-do-bico-vermelho representa não apenas a recuperação de uma espécie emblemática, mas também um exemplo de como políticas públicas ambientais, ciência aplicada e mobilização social podem reverter os efeitos da extinção local e restaurar o equilíbrio ecológico.
Por Leonardo Souza
Com as informações: Agência Minas
Foto: Gabriel Ávila
