A produção de alface ao ar livre no Brasil enfrentará sérios desafios nas próximas décadas, devido às mudanças climáticas. Mapas de risco climático elaborados pela Embrapa Hortaliças (DF), com base em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mostram que até o fim do século, praticamente todo o território nacional estará exposto a riscos elevados para a produção dessa hortaliça. A pesquisa foi publicada no dia 5 de setembro e revela que, independentemente do cenário climático, a alface, o vegetal mais consumido no Brasil, será gravemente afetada, especialmente durante os verões mais quentes.
Os pesquisadores consideraram dois cenários climáticos: um otimista, com controle parcial das emissões de gases de efeito estufa, e outro pessimista, em que as emissões continuam crescendo até 2100. Ambos os cenários indicam que o verão será a estação mais crítica para o cultivo da alface, com temperaturas que podem ultrapassar os 40°C em grande parte do Brasil, muito acima do ideal para a planta, que precisa de clima ameno e umidade equilibrada.
O engenheiro-ambiental Carlos Eduardo Pacheco, pesquisador da Embrapa, destaca a importância de entender os impactos das mudanças climáticas para criar estratégias de adaptação. “Compreender como as mudanças climáticas podem afetar a produção de alface, em um país tropical como o Brasil, é essencial para desenhar estratégias de adaptação. Isso permite antecipar impactos e evitar prejuízos”, afirma.
Cenários climáticos e riscos para a produção de alface
A pesquisa utilizou mapas de risco climático baseados na base de dados “Projeções Climáticas” do Inpe, com resolução espacial de 20 km², e no modelo dinâmico ETA, que já foi validado para o Brasil e América Latina. O modelo projetou a temperatura (mínima, média e máxima) em diferentes estações do ano ao longo de quatro intervalos de tempo: até 2040, de 2041 a 2070, de 2071 a 2100, e o período histórico de 1961 a 1990, como referência. Para simular cenários futuros, foram usados os Caminhos de Concentração Representativos (RCPs) do IPCC, sendo o cenário otimista (RCP 4.5) com aumento de temperatura entre 2°C e 3°C até 2100, e o pessimista (RCP 8.5) com elevação de até 4,3°C.
A pesquisa revela dados alarmantes para o período entre 2071 e 2100. No cenário otimista, 79,6% do território brasileiro apresentará risco climático alto para o cultivo de alface, enquanto 17,4% enfrentará risco muito alto. No cenário pessimista, 87,7% do país estará em risco muito alto, e apenas 11,8% apresentará risco alto. Para Carlos Pacheco, esses resultados mostram a necessidade urgente de adaptação dos sistemas produtivos, especialmente para hortaliças que são mais sensíveis às altas temperaturas do que grandes culturas como milho e soja.
Desafios específicos do verão e adaptação da produção
O verão, por ser a estação mais crítica para o cultivo da alface, apresenta temperaturas que variam de 23,4°C a 41,2°C no cenário RCP 4.5, e de 25,4°C a 45°C no cenário RCP 8.5, para o intervalo de 2071 a 2100. A alface, por ser uma planta que depende de temperatura amena e boa umidade para se desenvolver plenamente, apresenta dificuldades em condições tão extremas. As sementes de alface, por exemplo, precisam de temperaturas abaixo de 22°C para germinar, o que se torna um problema em cenários de altas temperaturas.
A Embrapa tem se dedicado ao desenvolvimento de cultivares mais resistentes ao calor, como a alface BRS Mediterrânea, que já é usada por muitos produtores. Fábio Suinaga, pesquisador da Embrapa, explica que a cultivar é mais precoce, ficando menos tempo no campo, o que a torna menos exposta às oscilações de temperatura. Rodrigo Baldassim, produtor de alface em São José do Rio Pardo (SP), relata que a alface BRS Mediterrânea representa 80% da produção de alface crespa em sua propriedade, pois é mais resistente ao calor e tem outras vantagens, como maior volume de folhas e menor risco de queimadura nas bordas.
Desordens causadas pelas altas temperaturas e os próximos passos da pesquisa
Altas temperaturas podem causar desordens nas folhas da alface, como a queima de borda e o florescimento precoce (pendoamento). A queima de borda ocorre quando o mineral cálcio não é adequadamente distribuído pelas folhas devido ao calor e excesso de umidade, resultando em manchas escuras. Já o florescimento precoce acontece quando a alface, exposta ao estresse térmico, começa a emitir o pendão para a produção de sementes, prejudicando a qualidade da planta.
Com a crescente ameaça das mudanças climáticas, a Embrapa tem intensificado suas pesquisas para garantir a sustentabilidade da produção de alface. A pesquisa, que está em fase de expansão, também está considerando a inclusão de outras hortaliças, como tomate, batata e cenoura, nos mapas de risco climático, dada a vulnerabilidade dessas culturas ao clima. Pacheco adianta que o próximo passo é utilizar uma base de dados com maior resolução, chamada WorldClim, para obter uma previsão ainda mais precisa do impacto climático nas hortaliças. Além disso, a inteligência artificial está sendo adotada para agilizar a geração dos mapas e ampliar a escala dos estudos.
Um olhar para a segurança alimentar
A pesquisa da Embrapa também aborda a questão da segurança alimentar, que está intimamente ligada às mudanças climáticas e à produção de hortaliças. A crise climática não apenas afeta a produção, mas também pode comprometer a soberania alimentar, um conceito que integra a saúde humana, animal e ambiental. Nesse sentido, o estudo dos mapas de risco climático é fundamental para que políticas públicas e práticas agrícolas possam ser adaptadas para garantir a segurança alimentar no futuro.
Da redação do Jornal Panorama
Com informações: Paula Rodrigues / Embrapa
Imagem: FreePik/Imagem Ilustrativa
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