A restauração ecológica da Bacia do Rio Doce, que atravessa os estados de Minas Gerais e Espírito Santo, pode enfrentar desafios significativos a longo prazo, caso os impactos das mudanças climáticas não sejam considerados. Esse alerta vem da pesquisa Adaptative Restoration Planning to Enhance Water Security in a Changing Climate, conduzida pelo Laboratório de Ecologia e Conservação de Ecossistemas (LECE) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). O estudo, publicado em abril de 2025 na revista Ambio, aponta que, diante de cenários climáticos futuros, as práticas atuais de recuperação da vegetação nativa e do curso da água podem não ser suficientes para garantir a qualidade hídrica da região.
A pesquisa foi realizada pelo biólogo Luiz Conrado Silva, como parte de seu mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução da Uerj. Usando a Bacia do Rio Doce como estudo de caso, o objetivo foi analisar como as intervenções ecológicas, previstas pela Lei de Proteção à Vegetação Nativa (LPVN), poderiam impactar a qualidade da água da bacia em diferentes cenários climáticos projetados para 2070. Para isso, a metodologia de Avaliação Integrada de Serviços Ecossistêmicos (InVEST), da Universidade de Stanford, foi aplicada, sob a orientação da professora Aliny Pires, bióloga do Departamento de Ecologia da Uerj.
Impactos climáticos e restauração ecológica
A pesquisa revela que, dependendo dos efeitos das mudanças climáticas sobre a erosão das margens da bacia, será necessário revisar as prioridades da restauração ecológica. Isso se deve ao aumento da exportação de sedimentos, o que pode comprometer a segurança hídrica das comunidades ao longo do rio. Em áreas como a sub-bacia de Santo Antônio, por exemplo, a recuperação das margens dos rios, conforme a LPVN, pode não ser suficiente, exigindo a ampliação da área restaurada para além da região de transição entre ambientes terrestres e aquáticos.
Em 2025, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), completa dez anos. O desastre liberou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos e causou impactos ambientais e sociais profundos na região. Em 2019, o rompimento da barragem em Brumadinho (MG) agravou ainda mais os danos, afetando cerca de 2,2 milhões de pessoas que dependem das águas do Rio Doce. O objetivo da pesquisa é avaliar como as práticas de restauração ecológica, como o plantio de espécies nativas e a criação de corredores ecológicos, podem minimizar os danos causados por esses desastres e melhorar a qualidade da água da bacia.
O Desafio da erosão e da precipitação
Os pesquisadores observaram que as mudanças climáticas podem intensificar a erosão nas margens da bacia e aumentar significativamente a quantidade de sedimentos que são levados para os rios. Em cenários projetados para 2070, as sub-bacias de Santo Antônio, Piracicaba e Piranga poderiam perder, respectivamente, 500 mil, 345 mil e 140 mil toneladas de sedimentos anualmente. Essa carga de sedimentos seria prejudicial para a qualidade da água em toda a bacia.
A restauração das margens, segundo o estudo, poderia reduzir em até 90% a exportação de sedimentos, o que ajudaria na melhoria da qualidade da água e na resiliência do ecossistema. Porém, o aumento da precipitação nas áreas altas da bacia pode tornar ainda mais desafiador o controle da erosão, o que exigirá um planejamento mais robusto para garantir que os benefícios da restauração se concretizem no longo prazo.
Protocolo para restauração: aplicações futuras
O estudo de Luiz Conrado Silva propõe um novo protocolo para a restauração ecológica, considerando os cenários climáticos e os serviços ecossistêmicos essenciais para a recuperação de áreas degradadas. A pesquisa sugere que a abordagem deve ser replicada em outros ecossistemas degradados, além da Bacia do Rio Doce, e aplicada a diferentes contextos climáticos. O objetivo é priorizar áreas de restauração com base no impacto das mudanças climáticas e garantir que as intervenções ecológicas tenham eficácia a longo prazo.
Em termos práticos, a pesquisa visa influenciar as decisões de políticas públicas relacionadas à recuperação do Rio Doce. Segundo Aliny Pires, a intenção é mobilizar todos os envolvidos, desde pesquisadores até as mineradoras e os governos de Minas Gerais e Espírito Santo, para que as conclusões da pesquisa sejam integradas às ações de restauração da bacia. “Estamos trabalhando para garantir que a vegetação nativa da região não seja desmatada e que os benefícios ambientais sejam preservados”, afirma a professora.
Conclusões e perspectivas
A pesquisa conclui que a restauração ecológica no Rio Doce não pode ser vista de forma isolada, sem considerar o impacto das mudanças climáticas. Além disso, a definição de áreas prioritárias para a restauração depende diretamente do cenário climático projetado, o que reforça a necessidade de incluir essas projeções no planejamento. A expectativa é que o estudo contribua para a criação de políticas públicas mais eficazes, capazes de enfrentar tanto os desafios climáticos quanto os ambientais impostos pelos desastres de mineração.
Com informações: Agência Brasil
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Jornal Panorama Minas – Grande Circulação – Noticiando o Brasil, Minas e o Mundo – 50 Anos de Jornalismo Ético e Profissional
