Beirava quatro da tarde quando doutor Rogério estacionou próximo ao calibrador de pneus. Ao descer sentiu o velho incômodo do ciático, de novo. Talvez o carro fosse grande pra ele, daqueles de sete assentos. Com dificuldade desceu trajando sua inseparável gravata.
Muitos no ambiente daquele grande posto de gasolina cercado por oficinas mecânicas, borracharias, lavadores, espaços de negociantes de carros usados o conheciam e já haviam necessitado de seus serviços. Alguns sabiam que ele estava se transformando num dos mais renomados advogados das Vertentes e parte da Zona da Mata. Estudioso, perspicaz, raciocínio vívido e extremamente fértil, oratória impecável, moderna, de fácil assimilação, encampava todas as qualidades para despontar na carreira.
Rogério Danúbio, assim era conhecido. O sobrenome era um nome profissional criado por ele, que imaginou um marketing para si quando ainda era vendedor de propagandas de rádio e jornal e batia perna o dia inteiro. Em verdade, imaginou-se não um rio e sim um vulcão, havia confundido Danúbio com Vesúvio. Mas com ele era assim, quase tudo dava certo, mesmo quando errava.
Doutor Rogério entrou na borracharia repleta de pneus, câmaras de ar, uma banheira velha cheia d’água e uma bigorna, ferramentas espalhadas e a parede coberta de pôsteres com imagens de mulheres peladas: loiras, brancas, mulatas, negras, travestis, em banheiras, motos, carros, no campo, montadas a cavalo.
O dono da Borracharia chamava-se Ricardo, tinha apelido de Quinho e também era chamado de Rick e de Rei, este, um adágio que designava o vendedor de drogas. Os playboys do centro que com ele vinham ter, geralmente às sextas feiras, chamavam-no carinhosamente de Rei Ricardo da Inglaterra.
_ O Rick falou pro senhor entrar!
Disse o rapazinho atrás do pequeno balcão.
Rogério entrou pela cozinha que nada mais era que um prosseguimento da borracharia e chegou à sala onde seu cliente fazia anotações e separava um dinheiro.
_ Como vai doutor? Que bom te ver, muito feliz em ver o senhor bem de saúde para me livrar de mais uma! Você vai conseguir, né doutor?
_ Não sei, Ricardo, já é a terceira vez que você é pego em tão pouco tempo, vários processos em menos de cinco anos. Você já respondeu por tráfico de drogas, associação para o tráfico naquela situação com o Nilomar e agora receptação na compra dessa moto.
_ Ah doutor, você é fera, sua fama cresce igual erva daninha nessa encosta aí, o senhor ganha todas as causas, comigo não vai ser diferente.
_ Tudo tem limite e você apronta uma atrás da outra. Milagre eu não faço!
Neste momento um menino de sete anos entrou na sala e ficou brincando. Em seguida, uma morena bonita, engraçadinha, atual mulher do borracheiro e também traficante e receptador passou pela sala, mas Rogério nem olhou, não que não gostasse, pelo contrário, tinha era receio de seus clientes, a maioria deles violentos.
O menino, de nome José, continuava brincando: uma criança bonita, de cabelos pretos lisos, pele morena cor de jambo, lembrava um curumim sadio e alegre.
_ Mãe, eu sei que Papai Noel não existe, você vai pedir pro Quinho me dar a bicicleta? Perguntou José.
_ Depois a gente conversa isso, filho.
Rogério, que não tinha filhos, olhou para José e disse:
_ Que menino bonito!
Quinho, um homem feio e sem sutilezas, apressou-se em se levantar, apontar o braço e o dedo indicador em direção a atual companheira, com a intenção de deixar claro que não era o pai do menino:
_ É dela!
Naquele instante, Rogério ainda olhava com candura para José e sentiu a frustração em sua face, antes ingênua e leve, agora de olhos baixos. Percebeu de imediato que José não tinha pai e a figura de Rick, Quinho ou Ricardo, por pior que fosse, poderia lhe confortar, orientar e lhe encher de confiança para a vida. Mas mesmo diante de um elogio, de um momento de alegria, tinha de ser lembrado e conviver novamente com essa diferença, a de não ter pai, ao contrário das outras crianças que conhecia.
A expressão de decepção de José – uma criança tão pura – parece ter penetrado fundo na mente de Rogério que se esforçou virando o rosto para não deixar ver a umidade que começava a tomar conta de seus olhos, a pequena lágrima que teimava em surgir na face rosada de um advogado experiente que já tinha percebido aquele tipo de situação outras vezes, de variadas formas, mas nunca com tanta crueza.
_ Tá sentindo alguma coisa doutor? Perguntou Quinho ao mesmo tempo em que lhe entregava o dinheiro que acabara de contar.
Rogério respirou fundo, argumentar ali não era seu forte, nunca se imaginou eclesiástico, filantropo, mecenas, nada disso, entretanto, contornar situações difíceis era uma atividade que praticava desde novinho.
_ Ricardo, deixa eu lhe perguntar uma coisa: quando você trouxe a mãe para morar contigo o menino veio junto, não veio?
_ Veio sim doutor, veio sim!
_ Então, toda criança precisa de uma figura paterna e o pai dele, se existir, deve ter medo de você, portanto, assuma seu papel, afinal você é o homem da mãe dele.
Rogério pegou o dinheiro, o entregou nas mãos da mãe de José e disse:
_ No dia da audiência vou passar aqui antes e quero ver o menino andando na bicicleta nova, caso contrário, não vou.
Adiantando-se a sua atual patroa, Ricardo falou, quase em tom solene:
_ Combinado doutor. Nunca faltei com a palavra contigo.
A mãe de José sorriu, parecia não acreditar no que se passava, há quanto tempo não tinha uma surpresa tão grata.
_ Esse dinheiro é para comprar minha bicicleta? Perguntou José.
Rogério se despediu dos adultos e passando a mão na cabeça de José, como se abençoavam as crianças antigamente, saiu. Entrou no carro sem dificuldades, seu ciático já não doía. Refletiu absorto, onde ninguém o vê, aliviado, com a certeza de que fizera o que lhe fora possível diante das circunstâncias, e não foi apenas como um bom advogado. Era véspera de Natal.
Lúcio da Silva
Foto – FreePik
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