Um levantamento realizado pelo Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes (Gracias), da Universidade de São Paulo (USP), revela que a islamofobia continua presente no cotidiano de grande parte das mulheres muçulmanas no Brasil. Segundo a terceira edição do Relatório de Islamofobia no Brasil, 80% das entrevistadas afirmaram já ter sido vítimas de discriminação, preconceito ou ataques motivados por sua religião.
O estudo ouviu 328 mulheres de diferentes perfis, incluindo brasileiras nascidas em famílias muçulmanas, brasileiras revertidas ao islamismo, estrangeiras nascidas muçulmanas e estrangeiras que adotaram a religião ao longo da vida.
Entre os grupos analisados, as brasileiras revertidas apresentaram o maior índice de relatos de islamofobia, atingindo 84,5%. O percentual foi de 80,4% entre brasileiras nascidas em famílias islâmicas, 75% entre estrangeiras revertidas e 60% entre estrangeiras que já nasceram muçulmanas.
Os dados também mostram que a percepção da discriminação é amplamente compartilhada. Entre as brasileiras revertidas, 96,7% afirmaram acreditar que as mulheres muçulmanas sofrem preconceito no país.
As situações relatadas ocorrem principalmente em espaços públicos, ambientes digitais e locais de trabalho. Conforme o relatório, 36,4% dos episódios aconteceram nas ruas, 30,9% na internet e 19,7% no ambiente profissional.
Além das agressões verbais e do preconceito, algumas entrevistadas relataram impactos significativos em suas vidas pessoais e profissionais. Entre os depoimentos apresentados no estudo estão relatos de dificuldades para permanecer em determinadas carreiras, ofensas relacionadas à associação equivocada entre islamismo e terrorismo e até demissões motivadas por preconceito contra o uso do véu islâmico.
Os pesquisadores destacam ainda que os efeitos da discriminação podem provocar consequências psicológicas importantes, incluindo quadros de ansiedade e depressão.
Outro ponto observado pelo levantamento é a baixa procura por canais formais de denúncia. Apenas 6% das brasileiras revertidas afirmaram ter registrado boletim de ocorrência após sofrer episódios de intolerância religiosa. Entre as brasileiras nascidas em famílias muçulmanas, o percentual foi de 8,7%. Segundo o estudo, muitas vítimas não acreditam que os casos serão devidamente investigados.
Nas redes sociais, o Instagram apareceu como a plataforma mais citada em relatos de agressões, concentrando 74,5% dos casos mencionados. Facebook e WhatsApp foram lembrados por 34,2% das entrevistadas, enquanto TikTok e X registraram percentuais menores.
A pesquisa também discutiu o papel das plataformas digitais na disseminação de discursos discriminatórios e analisou as políticas adotadas pelas empresas para combater conteúdos de ódio. A Meta, responsável por Facebook, Instagram e WhatsApp, afirmou que possui regras que proíbem ataques baseados em características protegidas, incluindo religião, e informou que remove conteúdos que violem suas diretrizes.
O relatório reforça o debate sobre intolerância religiosa no Brasil e destaca a necessidade de ampliar ações de conscientização, proteção às vítimas e combate a práticas discriminatórias contra diferentes grupos religiosos.
Por: Jonatan Daniel, com informações da Agência Brasil
Foto: Divulgação
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