Eliene Lima – @elienelima.psi
Vivemos um tempo de intensos questionamentos sobre a identidade masculina. Na minha prática clínica e nas pesquisas que desenvolvo sobre a paternidade e o comportamento do homem, percebo um fenômeno latente: o vácuo de posicionamento. Frequentemente rotulados por estereótipos de toxicidade ou autoritarismo, muitos homens sentem-se perdidos, oscilando entre a pressão por uma força bruta — que muitas vezes descamba para a violência — e uma sensibilidade que, quando demonstrada, é prontamente estigmatizada como “frouxidão”.
Nesse cenário de desorientação, surgem movimentos que buscam oferecer um norte, como o recentemente divulgado e muito criticado “Summit – O Farol e a Forja”, idealizado pelo ator Juliano Cazarré, e o movimento “Legendários” que também já foi conteúdo amplamente discutido em matéria de jornal. Na minha opinião, mais do que simples eventos, essas iniciativas funcionam como ritos de passagem e espaços de validação coletiva, e uma curiosidade é que ambos bebem da fonte religiosa — seja de base católica ou evangélica —, resgatando a figura arquetípica de um Pai que inspira, cuida, protege e aponta o caminho e as respostas.
Buscando entender um pouco mais a motivação do evento que foi insistentemente debatido nos últimos dias, pesquisei sobre o significado das palavras que compõem o seu título. O que encontrei foi que o farol representa a clareza de propósito e a visão; a forja representa o caráter moldado pelo esforço e pela têmpera da vida. Podemos dizer, portanto, que sem direção, a força é destrutiva; sem têmpera, a luz se apaga diante das tempestades.
A metáfora do “Farol” nos remete à direção e à transcendência, nos levando a concluir que o homem que se propõe a ser farol não impõe sua presença pelo medo, mas brilha como referência moral e ponto de segurança para sua família e comunidade. Já a “Forja” simboliza o processo interno de transformação e resistência. O metal bruto só se torna ferramenta útil após passar pelo fogo e pela pressão. Para o homem contemporâneo, isso significa entender que a maturidade e a virtude não nascem prontas, são forjadas na disciplina e na capacidade de sustentar responsabilidades.
A grande questão que proponho é: como integrar essa busca por força com a necessária vulnerabilidade humana? Entendo que o que está em questão aqui, acima de tudo, é uma questão identitária – o que os homens foram no passado já não os respalda socialmente, e o que é exigido deles nesse contexto de masculinidade tóxica é algo que ainda não fica muito claro. Não há lugar para o “bruto” assim como também não há lugar para o “sensível”, e nessa busca por um novo lugar os homens usam sua natureza de solucionadores de problema para tentar encontrar a saída. Percebendo que sua identidade está em crise, eles buscarão métodos para resolvê-la — seja no topo de uma montanha, em um auditório ou na vivência espiritual.
O Summit proposto por Cazarré trouxe, mais uma vez, uma divisão política para um assunto que, ao meu ver, está muito mais ligado a outras origens. Para mim, esses movimentos que vem surgindo são a prova de que os homens estão tentando encontrar seu lugar em uma sociedade que os critica, mas ainda não aprendeu a acolher sua sensibilidade sem julgamentos. E na busca por uma sociedade verdadeiramente inclusiva, penso que cabe a nós observar esses fenômenos com empatia, compreendendo que a busca pelo “Farol” e pela “Forja” é, no fundo, uma tentativa de redescobrir um sentido para o existir masculino no século XXI.
*Eliene Lima é psicóloga, consultora em psicologia organizacional, palestrante e Tenente Coronel Veterana do Quadro de Oficiais de Saúde da PMMG.
Autora do livro “Pelo olhar do meu pai” (amazon.com.br).
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