Eliene Lima – @elienelima.psi
Janeiro é um mês de recomeços e o rito de passagem conhecido como réveillon, para muitos funciona como uma ponte que facilita a desconexão de falhas passadas e impulsiona para novos comportamentos. É um momento de novas promessas em que o autocuidado, nas suas diversas formas, ganha evidência e prioridade – ainda que para deixar de ser, tão logo passe o carnaval.
Aproveitando a força desse simbolismo, um psicólogo mineiro, em 2014, idealizou a campanha Janeiro Branco, inspirado nas campanhas já existentes como o Outubro Rosa e Novembro Azul. O objetivo é incentivar as pessoas a cuidarem da mente no início do ano, usando o primeiro mês como uma “folha em branco” para escrever novas histórias, reavaliar a vida e buscar bem-estar psicológico. Em 2023, a Lei Federal nº 14.556 fortaleceu o movimento instituindo oficialmente o Janeiro Branco em todo o território nacional, dando ainda mais respaldo às ações de conscientização sobre saúde mental e redução de estigmas.
Mas, para o público masculino, esse “quadro em branco” costuma ser um desafio, pois, historicamente, o homem é ensinado a preencher todos os espaços vazios com produtividade e força, silenciando suas dores e até mesmo suas emoções mais legítimas. No entanto, aquilo que não colocamos para fora e engolimos pode se tornar uma bomba relógio prestes a explodir, fazendo estragos tanto para a própria pessoa quanto para quem está ao seu redor.
Negar uma emoção, uma frustração, um desconforto, uma dor, não faz com que desapareçam como num passe de mágica. O que pode acontecer, com frequência, é o seu crescimento descontrolado trazendo prejuízos para a saúde física e psicológica. A pressão social para que o homem seja sempre assertivo, proativo e solucionador de problemas alimenta uma cultura que não lhe dá espaço para demonstrar fraqueza, incerteza e insegurança. Mas elas existem, para todos nós seres humanos, independente do gênero, e quando não observadas vão procurar formas diversas para serem percebidas.
Por isso, muitas vezes a busca pelo consumo de bebida alcoólica, pelos esportes radicais, comportamentos sexuais de risco, violência no trânsito, acabam surgindo como alívio para aquilo que não pode ser dito. E as estatísticas nos mostram que esses são comportamentos muito mais observados entre os homens que entre as mulheres.
Janeiro é o mês de novos planejamentos, e não existe vida funcional sem uma mente saudável. Para você que chegou até aqui, eu faço um convite: que tal começar o novo ano pausando o “modo automático” e avaliando como está a sua configuração interna?
Lembre-se: a responsabilidade pelo nosso bem estar é primeiramente nossa, e cabe a nós, buscar o autoconhecimento para entender melhor aquilo que nos traz felicidade.
Que seja um ano de muita saúde mental para todos nós!
*Eliene Lima é psicóloga, palestrante e Tenente Coronel Veterana do Quadro de Oficiais de Saúde da PMMG, autora do livro “Pelo olhar do meu pai” (amazon.com.br).
@elienelima.psi
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