Um projeto de pesquisa da Unicamp tem como objetivo criar um modelo de inteligência artificial (IA) capaz de identificar o câncer de pele em pessoas negras, combatendo o viés racial presente na dermatologia. A iniciativa, conduzida por uma professora do Instituto de Computação, busca desenvolver um algoritmo baseado em redes neurais e construir um banco de dados dermatológicos inclusivo e representativo, em parceria com o Living Lab da organização SAS Brasil. As imagens serão coletadas em unidades móveis e fixas nos estados do Ceará e Goiás, permitindo que a IA aprenda a identificar padrões de lesões malignas e benignas em diferentes tons de pele. O projeto prevê coleta e análise de dados entre 2025 e 2027, validação do modelo a partir de julho de 2026 e divulgação dos resultados até 2028, após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP).
Desde julho deste ano, a SAS Brasil já aplica um protocolo de atendimento específico para pessoas negras, treinando equipes de enfermagem para diagnosticar o câncer de pele nesse grupo. Para isso, são utilizados tanto celulares quanto dermatoscópios, que registram imagens ampliadas e detalhadas da pele. A proposta da pesquisa é criar um sistema simples e acessível que possa ser utilizado por profissionais de saúde, fortalecendo a integração entre telessaúde, IA e atendimento presencial, especialmente em regiões remotas ou com poucos especialistas.
O câncer de pele é o tumor maligno mais frequente no Brasil, correspondendo a cerca de 30% dos casos de câncer, dos quais 4% são melanomas. A pesquisa destaca que a pele negra apresenta características específicas, como maior quantidade de melanina, tendência a hiperpigmentações e respostas mais intensas a inflamações, o que exige protocolos preventivos e terapêuticos específicos. A baixa representatividade de imagens em peles negras em bancos de dados médicos pode levar a diagnósticos equivocados e aumentar o risco de mortalidade. Desde 2020, o projeto passou a focar na coleta de imagens de áreas menos expostas, como mãos, pés e unhas, locais de maior incidência de melanoma em pessoas negras, ampliando a precisão do algoritmo.
Além do caráter tecnológico, a pesquisa tem forte componente educativo. A SAS Brasil pretende expandir o protocolo de triagem para outros municípios, estimulando a população a adotar práticas preventivas de autocuidado, assim como ocorre com o câncer de mama. A iniciativa também treina profissionais e conscientiza a população sobre a importância da detecção precoce. A pesquisa já recebeu premiações nacionais e internacionais, incluindo o Google Award for Inclusion Research 2022 e o prêmio “Dermatologia Mais Inclusiva” do Grupo L’Oréal Brasil em 2025, consolidando sua relevância científica e social.
Alunos de pós-graduação de três laboratórios da Unicamp — o Brazilian Institute of Data Science (BI0S), o Hub de Inteligência Artificial e Arquiteturas Cognitivas (H.IAAC) e o Recod.ai — participam do projeto, colaborando para o desenvolvimento do algoritmo, coleta de dados e análises. A iniciativa demonstra que a união entre tecnologia, ciência e inclusão é essencial para garantir diagnósticos mais seguros, ampliar o acesso à saúde e reduzir desigualdades históricas no cuidado com a população negra.
Da redação do Jornal Panorama
Com informações: Helena Tallmann/Unicamp
Imagem: Antonio Scarpinetti
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