A Inteligência Artificial (IA) tem se consolidado como uma das tecnologias mais transformadoras da atualidade. Sua aplicação vai muito além de setores como a medicina e a indústria, alcançando também áreas dedicadas à preservação da memória cultural. Nesse contexto, um exemplo notável do uso da IA é o trabalho de recuperação de imagens da Beata Nhá Chica, que ilustra como essa tecnologia pode contribuir para a conservação e valorização do patrimônio histórico e cultural.
O uso da IA em imagens de Nhá Chica
Nhá Chica, nome de batismo Francisca de Paula de Jesus (c. 1810-1895), foi uma mulher leiga, negra e filha de escrava, cuja devoção religiosa e atos de caridade em Baependi, no sul de Minas Gerais, lhe conferiram a fama de santidade. Beatificada em 2013, ela se tornou a primeira beata negra do Brasil, e sua história inspira peregrinos até hoje no Santuário Nossa Senhora da Conceição, em Baependi.
Muitas das imagens que documentam sua vida e legado estavam deterioradas pelo tempo, impossibilitando a visualização de detalhes importantes da sua trajetória. Foi nesse cenário que o historiador Gilberto Furriel se uniu à tecnologia para realizar um trabalho inovador de restauração dessas imagens. Utilizando recursos de Inteligência Artificial, Furriel buscou recuperar traços e detalhes que o tempo havia apagado, trazendo mais nitidez ao vestido, à face, às mãos e outros pormenores das fotos.
No entanto, é importante destacar que o trabalho realizado por Furriel não busca apresentar uma “verdade absoluta”, mas sim uma “hipótese visual” — uma reconstrução plausível baseada na tecnologia e na pesquisa histórica. A aplicação da IA nesse caso tem como objetivo revitalizar a memória de Nhá Chica, mas sempre com o reconhecimento de que as cores e detalhes reconstruídos não correspondem à realidade exata das imagens originais. As cores que a IA gerou são hipotéticas, não representam a cor real do que era, segundo Furriel.
O papel do historiador e a importância da honestidade na aplicação da IA
A IA pode ser uma ferramenta poderosa na restauração de fotos antigas, mas seu uso deve ser conduzido com responsabilidade. Um ponto fundamental é que os resultados gerados pela IA dependem da qualidade das informações fornecidas. Ou seja, a veracidade do trabalho está diretamente ligada à credibilidade de quem aplica a tecnologia.
A IA utiliza algoritmos de aprendizado de máquina para analisar e restaurar imagens danificadas, corrigindo distorções causadas pelo tempo e aumentando a resolução das fotos. No caso das fotos de Nhá Chica, a tecnologia foi capaz de reconstruir detalhes que, de outra forma, seriam impossíveis de recuperar manualmente. Contudo, para que o processo seja genuíno, é essencial que o historiador, ou qualquer outro profissional responsável, forneça informações precisas e contextualizadas. A IA, por si só, não tem a capacidade de “saber” a cor exata de um vestido ou a tonalidade de um lenço, por exemplo. O que ela faz é reconstruir com base em dados históricos e padrões visuais, mas sempre com um grau de incerteza.
Embora a IA seja uma ferramenta eficaz, o ser humano, ainda é o elemento crucial para garantir a honestidade no processo e evitar interpretações equivocadas. Assim, a tecnologia se torna um aliado na preservação da história, mas não substitui o olhar atento e ético do profissional que a utiliza.
Ferramenta útil para preservação de legado histórico
A restauração das fotos de Nhá Chica ilustra como a Inteligência Artificial pode ser uma aliada na preservação do legado histórico, revelando detalhes esquecidos pelo tempo e permitindo o acesso à memória de figuras históricas, especialmente quando os registros são escassos. No entanto, é fundamental destacar que, apesar das capacidades da IA, o papel do historiador é indispensável. Ele é o responsável por aplicar a tecnologia com rigor e honestidade, assegurando que a reconstrução da imagem seja conduzida de forma ética, mantendo o respeito pela verdade histórica. A IA pode facilitar o processo, mas é o olhar humano que garante a integridade e a precisão na preservação da memória





Por Eduardo Souza
Com informações e imagens: HistoriadorGilberto Furriel/Fundação Nhá Chica/Instituto Nhá Chica
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