Há registros de que na Europa Medieval não havia banheiros e muito menos vasos sanitários dentro de casa. A popular latrina ficava em um anexo, a casinha, para evitar que ruídos e odores indesejáveis tresandassem pelos cômodos.

A distância entre a casa e a casinha variava e nem sempre era coberta à tempo pelo “apertado”. Muitos flagrantes constrangedores foram flagrados pelos vizinhos que lamentavam a máquina fotográfica ainda não ter sido inventada (????). A invenção de um ferreiro inglês, no entanto, encheu de alegria os desarranjados: o penico!, uma solução pratica e eficiente que podia ser usada a qualquer hora – às vezes a casinha falava “Ocupado!” – e em qualquer lugar.

O penico foi um sucesso na época – como toda novidade. Algumas famílias pintavam um monograma ou o brasão da linhagem e muita gente saia à rua com ele a tiracolo. O penico estava para a casinha como o 5G está para o 4G. Mas havia um inconveniente: onde depositar as “sobras” – acho dejeto um nome horrível!- quando da utilização do penico dentro de casa? Não dava para ficar circulando pelos aposentos com o urinol seguro pela asa como se fosse uma xicara gigante. Muita gente disfarçava e quando não havia ninguém olhando jogava tudo pela janela (bem longe, é claro).

Gosto do nome urinol, muito mais elegante do que penico, não? Fazer qualquer coisa em um urinol dá uma certa distinção ao produto. Mas a mim urinol soa como nome de pássaro: “Hoje acordei com um urinol lindo cantando na janela!”

Apesar de existirem no Egito desde 2000 a.C. – conta a História – a latrina só entrou nas casas por volta de 1668 na França. Em torno delas surgiu o banheiro propriamente dito com pia, ducha, bidê, depois veio a bancada e mais recentemente o armarinho que no inicio por alguma razão vinha atrás do espelho. O amarinho chegou ao banheiro para esconder alguns medicamentos que gostaríamos de ocultar das visitas. O Luftal, por exemplo, (contra gases), poderia levar uma visita mais crítica a imaginar que naquela casa a flatulência está no ar.

O que ninguém imaginava é que nossa saúde se tornaria tão frágil que acabaríamos abarrotando os armarinhos de drogas e remédios de primeiros (e segundos) socorros.

Eu já estava pensando em botar um armário embutido no banheiro quando precisei de um colírio, algo que só uso eventualmente. Abri o armarinho, girei os olhos e dei de cara com seis colírios enfileirados em uma prateleira. Peguei o que me interessava e por acaso olhei o prazo de validade – julho de 1999! Peguei outro – validade: 2008! Acreditem; todos os colírios estavam vencidos! Usei o “menos vencido” (agosto de 2014) que, claro, não adiantou nada, mas animou-me a dar uma geral no armarinho. Descobri algumas preciosidades: um Mertiolato vencido em 1997 (fórmula antiga) e um Polvilho Granado com validade até – pasmem – 2000. Encontrei também uma gilete! Incrível! Há tempos não via uma gilete! Não me barbeio há 50 anos, não faço ponta em lápis, nem nunca pensei em cortar os pulsos.

Cartelas incompletas havia umas quinze! Quase todas com drágeas e comprimidos que iam muito além das minhas necessidades. O médico me recomendava três ou quatro drágeas, mas como a cartela vem com 10 ou 20, o resto dormia inútil nas prateleiras a espera de que algum dia possamos finaliza-la. Só que esse “algum dia” às vezes dura anos e a gente já perdeu a bula e nem lembra mais a serventia do remédio, nem de suas reações adversas, posologia e propriedades farmacodinâmicas.

Quando terminei a limpeza nas prateleiras, restava um pacote de algodão, quatro envelopes de antiácido e uma bisnaga de Hipoglós que vence daqui a dez dias (tem alguém aí precisando?). Guardei também a gilete na esperança de algum dia doá-la a um museu. Admirando as prateleiras com um olhar triunfal – e observando a lixeira com um olhar estupefato – cheguei à conclusão de que há espaço de sobra em todos os armarinhos. Desde que você não o transforme em um deposito de remédios vencidos.

Por: Carlos Eduardo Novaes – Acadêmico Correspondente da Academia Caxambuense de Letras