Por Pe. Jean Poul Hansen[1]

“Senhor, é vossa face que eu procuro. Não me escondais a vossa face”(Sl 26/27, 8b)

Recentemente, foi noticiada a reconstituição dos rostos de Jesus e Maria, através de técnicas de inteligência artificial.

Desde sempre a arte cristã, especialmente a pintura e a escultura, tentaram reconstruir os rostos destas duas personagens fundamentais para o cristianismo.

No, entanto, em 2020 veio a público o resultado do trabalho do artista holandês Bas Uterwijk (5), que reconstituiu o rosto de Jesus por meio do software neuronal Artbreeder, que aplica inteligência artificial a um conjunto de dados previamente fornecido. Apesar da experiência de Uterwijk em retratar personagens históricos e de ter como critério fundamental a busca do realismo, o próprio artista afirma: “Penso no meu trabalho mais como interpretação artística do que como imagens que sejam histórica e cientificamente acuradas”.

Em 2018, tinha sido o pesquisador italiano Giulio Fanti (4), professor da Universidade de Pádua e estudioso do Santo Sudário (7), que havia apresentado uma reconstituição tridimensional da fisionomia de Jesus, baseada em estudos desta relíquia de Turim. Um pano de linho branco, de 4,36m por 1,1m, que guarda impressa em negativo a imagem de um crucificado, sendo por isso considerado o pano que envolveu o corpo de Jesus no seu sepultamento. Duas questões essenciais permanecem sobre o sudário: a sua datação e a técnica de impressão usada. Um exame de carbono 14 feito em 1988 afirmou que o pano fora fabricado entre 1260 e 1390, período que corresponde à primeira aparição documentada da relíquia, em 1357, numa Igreja de Lirey, na França. Contudo, foi neste período também que o sudário resistiu ao primeiro incêndio de sua história e sofreu o primeiro restauro, donde teriam tirado o fragmento examinado pelo carbono 14, afirmam os defensores da autenticidade da relíquia. Estes acrescentam ainda que a técnica da costura, o fio utilizado e as características da crucifixão registradas no sudário, testemunham sua origem no séc. I. Embora se trate verdadeiramente de uma fotografia, que não se sabe como foi impressa, de um crucificado, falta ainda provar com rigor científico a autenticidade do sudário, venerado por muitos fiéis em Turim, na Itália, inclusive papas.

O sudário já inspirou outras 3 obras de reconstituição da face de Jesus.

A primeira foi pintada por Ir. Genoveva (Maria Celina Martin)(1), uma religiosa carmelita, que, em 1909, reconstruiu o rosto de Cristo a partir dos negativos de Paul Vignon. No mesmo ano, ela ganhou o Grande Prêmio na Exposição Internacional de Arte Religiosa Bois-le-Duc, na Holanda. Conta-se que o Papa São Pio X, ao ver o quadro, contemplou-o demoradamente, sussurrando várias vezes: “Como é lindo!”.

A segunda, e talvez a mais famosa é a do pintor armênio Ariel Agemian (2), realizada em 1935.

A terceira é de Ray Dowing (3), especialista em ilustração e animação 3D. Ele também partiu do Sudário e aplicou as mais novas tecnologias de animação digital.

Em novembro de 2021, foi a vez do professor brasileiro de designer, Átila Soares da Costa Filho (6), apresentar o resultado dos seus estudos, nos quais utilizou o que há de mais modernos em tecnologia de imagem e inteligência artificial e baseou-se na vasta pesquisa sobre o homem do sudário de Turim. Ele apresentou o que seria a fisionomia de Maria, a mãe de Jesus.

Contudo, estas publicações, cheias do desejo cartesiano de exatidão, como requer a ciência moderna, pouco ou nada acrescentam à fé. A trilha da fé se desenvolve por outros caminhos. A compreensão cristã da face de Jesus, como revelação da face de Deus, o invisível – “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9) – não se dá campo da ciência, nem sequer da arte, mas única e exclusivamente da fé. Acreditar que quem vê Jesus vê o Pai não significa aderir à identidade fisionômica entre ambos, mas à sua consubstancialidade, como afirmamos no Credo Niceno-Constantinopolitano. Ambos são iguais em sua natureza mais íntima. Jesus revela com suas atitudes, opções e palavras os segredos mais íntimos de Deus e seu projeto criador e redentor da humanidade, desconfigurada pelo pecado. Por esta razão, o nosso processo de configuração a Jesus Cristo também não se dá no campo estético (da imagem, da aparência, das formas, da fisionomia, do corte de cabelo, das vestes…), mas no campo ético-místico da fé, isto é, importa por uma relação pessoal e comunitária com o Senhor Jesus Cristo, configurar a ele nossas atitudes e opções, tornando-nos assim “outros Cristos”[2], a serviço da construção do Reinado de Deus no mundo, para que os pobres recebam a boa-nova; os presos, a liberdade; os cegos, a visão; os oprimidos, a libertação e toda humanidade a gratuidade no acesso a Deus (cf. Lc 4,16-21), o Pai, o “Abba” (Mt 6,9ss) de todo ser humano, criado à sua imagem e semelhança (Gn 1,26-28). Enfim, “para que todos tenham vida e vida plena” (Jo 10,10).

Maria tornou-se figura singular no cristianismo por ser a mãe do Filho de Deus feito homem e porque ela conseguir realizar de forma exemplar esta configuração que nós desejamos e buscamos. Por isso, ela é modelo para todo cristão. Configurar-se a ela, na perspectiva ético-mística da fé, é, na verdade, configurar-se com ela ao Cristo, seu filho, nosso único e suficiente salvador, a quem ela serviu com toda a sua vida e de quem, apesar de ser mãe, fez-se discípula.

Aproveitemos estes dias da Semana Santa, nos quais acompanhamos o Senhor Jesus nos últimos passos da sua paixão e morte, consequências da sua coerência entre palavras e obras, numa radical e obediente fidelidade ao projeto do Pai, para configurar-nos interiormente a Ele. Pois, só aqueles que morrerem com Cristo, ressuscitarão com Ele (cf. Rm 6,8).


[1] Pe. Jean Poul Hansen pertence ao clero da Diocese da Campanha (MG), onde é pároco da Paróquia N. Sra. da Conceição, em Careaçu (MG). Estudou Teologia no Instituto Teológico Interdiocesano São José, em Pouso Alegre (MG). É especialista em Origens do Cristianismo pelo Estúdio Agostiniano de Valladollid e mestre em Teologia Dogmática pela Universidade Pontifícia de Salamanca, ambos na Espanha, docente na Faculdade Católica de Pouso Alegre (FACAPA), membro da equipe de redação da Revista ECOando e assessor do Setor de Campanhas da CNBB.

[2] Expressão utilizada por São Boaventura para falar de São Francisco de Assis, na Legenda Maior.