Por Pe. Jean Poul Hansen *

O primeiro passo é viver bem a Quaresma.

A quaresma é um tempo de preparação, ou seja, não tem fim em si mesmo, mas naquilo para o que ela nos prepara: a celebração do Mistério Pascal de Cristo no ápice do ano litúrgico.

Outro elemento necessário, e que também faz parte dos exercícios quaresmais, é a confissão sacramental. Para viver bem e intensamente o Mistério Pascal é preciso libertar-se das amarras do pecado.

O terceiro elemento é participar das celebrações litúrgicas da Semana Santa, especialmente do Tríduo Pascal, que é o ponto mais alto de todas as celebrações cristãs durante o ano.

Para isto, é importante saber que na Semana Santa o que nós celebramos é a confluência de três ritmos diferentes, dois deles litúrgicos e um próprio da piedade popular herdada das tradições mediterrâneas:

1) O Sagrado Tríduo Pascal: ele começa com a celebração da Ceia do Senhor, na tarde da quinta-feira santa e vai até o domingo, cuja Solene Vigília Pascal, celebrada depois do por do sol do Sábado Santo é o ápice, por ser a primeira celebração da Ressurreição do Senhor. Suas principais celebrações são: a) a Missa da Ceia do Senhor, onde se repete o gesto do lava-pés e se celebra a instituição do sacerdócio ministerial e da SS. Eucaristia. Esta celebração termina com o translado da reserva eucarística para fora da Igreja, que é desnudada, onde os fiéis são chamados a permanecer em silenciosa vigília – com o Senhor no Horto das Oliveiras – até a meia-noite; b) a solene Ação Litúrgica da sexta-feira santa, normalmente celebrada às 15h, hora da morte redentora de nosso Senhor Jesus Cristo, no madeiro da cruz. Esta solene liturgia, que não é uma missa, consta de uma rica liturgia da Palavra, com textos do profeta Isaías, de São Paulo e a narrativa da Paixão segundo São João, uma solene e abundante oração universal, ou seja, grandes preces dos fiéis por todas as necessidades da Igreja e da humanidade no dia e na hora da redenção, apresentação e desvelo da cruz, altar onde se adora o crucificado e distribuição da comunhão, eucaristia consagrada na missa da véspera. No sábado santo a Igreja se recolhe em silêncio. Não há celebrações. Depois do pôr-do-sol, quando na contagem judaica do tempo, já é domingo, então celebra-se aquela que Santo Agostinho chamou “a mãe de todas as vigílias”, 3) a Solene Vigília Pascal, que começa com a bênção do fogo novo, confecção do Círio Pascal – aquela grande vela que simboliza Cristo Ressuscitado –, solene proclamação da Páscoa, seguida de abundante liturgia da Palavra – 9 leituras e 9 salmos, além do evangelho da ressurreição. Depois celebra-se a liturgia batismal e a liturgia eucarística. Passa-se da Páscoa da ceia (judaica) à pascoa da Cruz e desta à Páscoa da ressurreição.

2) O ciclo dominical: neste, consideramos apenas os domingos como dias litúrgicos, pois é apenas a eles que estão obrigados por preceito todos os cristãos. Celebramos então, num domingo a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém para sofrer a morte, que já celebramos na missa, por isso este domingo é chamado de Ramos e da Paixão do Senhor. A procissão é de ramos, exultante, feliz, alegre, cheia de hosanas e vivas ao Messias que entra na cidade santa, mas a missa não, esta é contrita, pois já nos põe diante do mistério da morte. A entrada triunfal de Jesus na cidade santa de Jerusalém é a imagem da entrada inaugural de Jesus na Jerusalém celeste, abrindo-nos as portas da Salvação. Nesta missa também ouvimos o profeta Isaías e a narrativa dialogada da paixão segundo o evangelista que estamos lendo nos domingos deste ano; noutro domingo, acompanhamos as mulheres ao sepulcro vazio, pois a liturgia já nos põe diante do mistério da ressurreição.

3) A semana santa da piedade popular assumida pela Igreja: esta, diz respeito prioritariamente às procissões tão belas e piedosas, aos sermões tão bem preparados e proferidos, ao cheiro do incenso e do manjericão, aos cantos populares e dos motetos etc, é típica do Sul de Minas, encontrada raramente em outros recantos do nosso país e até mesmo na Europa atual. Neste ciclo que se alterna com os dois precedentes, celebramos na segunda-feira da Semana Santa a prisão de Jesus: o andor velado diz de Jesus preso, o estandarte do Senado e Povo Romano (Senatus Populus Que Romanum – SPQR) em pé, diz da aparente vitória dos romanos sobre Jesus; as paradas nos passinhos marcam os passos de Jesus em sua paixão, cantados nos motetos (ou motetes) de passos, quase sempre frases do evangelho relativas à paixão de Cristo; na terça-feira da Semana Santa, fazemos memória do doloroso encontro de Maria com Jesus que carrega a sua e nossa cruz na subida do calvário. É uma continuação do caminho da segunda-feira, porém agora marcado pelo encontro, com seu plácido sermão numa esquina de nossos caminhos; na quarta-feira da Semana Santa, a piedade popular nos faz dar um salto, dos passos de Jesus às dores de Maria, e dentre estas, uma em especial, a da Soledade, que significa aquele sentimento de solidão que todos nós experimentamos na volta do cemitério, quando lá deixamos um ente querido e que Maria Santíssima experimentou, quando, depois da sepultura de Jesus voltou para sua casa. Os motetos de dores, cantados em cada um dos passos, visitados do último ao primeiro, são quase sempre do livro das Lamentações e traduzem as dores de Maria com as expressões das dores do Povo de Deus no exílio da Babilônia; na sexta-feira da Paixão, a piedade popular com sua típica teatralidade se soma ao ciclo litúrgico do Sagrado Tríduo Pascal, ao encenar – com imagens ou ao vivo – à noite, a morte e o enterro de Jesus, em silente procissão, acompanhados apenas por nossas bandas com suas marchas fúnebres, o canto da Verônica e o oco som das matracas. Nesta procissão que poderia parecer a vitória do poder romano, o seu estandarte – SPQR – vai deitado, pois na cruz, que é a maior expressão da glória de Cristo, ele fora definitivamente derrotado.

Como participar frutuosamente de tudo isso?

Naquilo que é litúrgico, envolver-se, participar ativamente, se há canto, cantar, se há reza, rezar, se há vela, levar, se há ramo, erguer, se há palavra, ouvir, se há silêncio, calar, se há água, molhar-se… A liturgia não é para assistir, mas para celebrar, isto é, para entrar no seu ritmo com toda a nossa vida, com todos os nossos sentidos, com toda a nossa atenção e concentração. Naquilo que é da piedade popular, é preciso participar com piedade, ou seja, em silêncio, em oração pessoal, meditando o mistério daquele momento, evitando conversas, comentários inoportunos etc, com atenção e concentração.

*Pe. Jean Poul Hansen pertence ao clero da Diocese da Campanha (MG), onde é pároco da Paróquia N. Sra. da Conceição, em Careaçu (MG). Estudou Teologia no Instituto Teológico Interdiocesano São José, em Pouso Alegre (MG). É especialista em Origens do Cristianismo pelo Estúdio Agostiniano de Valladollid e mestre em Teologia Dogmática pela Universidade Pontifícia de Salamanca, ambos na Espanha, docente na Faculdade Católica de Pouso Alegre (FACAPA), membro da equipe de redação da Revista ECOando e assessor do Setor de Campanhas da CNBB.