Entenda a importância desse profissional que vai muito além de pesagem, medição e introdução alimentar das crianças

A Pediatria surgiu como especialidade da medicina no final do século XIX, devido aos elevados índices de mortalidade infantil e ausência de profissionais especializados para cuidar de crianças. Segundo a Academia Médica, a Pediatria é uma das maiores especialidades médicas no Brasil, com aproximadamente 34 mil pediatras e mais de 3.000 residentes ao ano.

A função do pediatra é muito mais ampla do que tratar a doença dos pequenos. A missão passa por acompanhar o desenvolvimento físico e intelectual da criança em seus primeiros anos de vida. Cabe ao pediatra compreender sinais que muitas vezes não conseguem ser comunicados pelas crianças ou percebidos pelos pais. Por isso o papel do pediatra é desafiador e fundamental para a saúde da criança, alinhado com o comprometimento dos pais.  Além de cuidar do filho, o médico dessa especialidade também presta auxílio aos pais e familiares, com instruções sobre alimentação e cuidados básicos da saúde. Então é importante que a escolha do pediatra aconteça antes mesmo do bebê nascer, e que todos envolvidos busquem ter uma relação de harmonia e empatia, já que esse profissional estará presente na rotina da criança durante anos.

No Brasil, um dos grandes desafios dessa área, hoje, é estabelecer um sistema de prevenção que começa na identificação precoce de riscos e cuidados preditivos para crianças com doenças crônicas, visto que o brasileiro perdeu quase dois anos de expectativa de vida em 2020 por causa da pandemia de covid-19, segundo estudo feito pela equipe de pesquisadores liderados pela demógrafa Márcia Castro, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade Harvard. Em média, bebês nascidos no Brasil em 2020 viverão 1,94 ano a menos do que se esperaria sem o quadro sanitário atual no país.

A ciência tem caminhado juntamente com os pediatras para ampliar a capacidade de detectar precocemente a predisposição a condições de saúde raras, graves, silenciosas e tratáveis. Grande iniciativas para esse objetivo  são os testes de triagem feitos logo no nascimento do bebê: Teste do Olhinho, Teste do Pezinho, Teste da Orelhinha, Teste do Coraçãozinho e o Teste da Bochechinha. Segundo o doutor Fernando Kok, professor associado de Neurologia Infantil da Faculdade de Medicina da USP, “o meuDNA Bochechinha é um teste de triagem genética,  indicado a bebês que não apresentam qualquer tipo de sintomas. O teste é importante pois, quando detectadas precocemente, certas doenças podem ter seu curso inteiramente alterado, com  tratamentos que evitam um grande transtorno na vida dessas crianças”.

A experiência do pediatra, as novas possibilidades desenvolvidas pela ciência e a vivência dos pais precisam caminhar juntas para garantir a melhor qualidade de vida das crianças. É fundamental que o pediatra forneça informações de profilaxia para evitar histórias como o da Larissa Carvalho, jornalista, que sensibilizou as pessoas para a importância da triagem neonatal ao apresentar sua história com o filho Theo durante uma apresentação no TED chamada “Eu matei os neurônios do meu filho”. Ele não fez o teste do pezinho ampliado ao nascer e isso retardou o diagnóstico de uma doença rara chamada acidúria glutárica tipo 1, que impede que o corpo metabolize proteínas. Como Larissa não sabia disso, o amamentou normalmente, e ao ingerir as proteínas do leite materno Théo acabou desenvolvendo paralisia cerebral.

Por:  Dr. Fernando Kok, professor associado de Neurologia Infantil da Faculdade de Medicina da USP

Foto: Pixabay