Em entrevista ao JORNAL PANORAMA, o prefeito e o secretário de Saúde Tomé Peixoto falam sobre as medidas tomadas pelo município no combate à covid-19

No mês em que se completa um ano de pandemia da covid-19 – no dia 11 de março de 2020, a pandemia foi oficialmente declarada pela Organização Mundial de Saúde – os brasileiros sofrem, mais do que nunca, com a contaminação pelo coronavírus. Os olhos do mundo estão voltados para o país, no momento em que temos todos os dias novos recordes de mortos pela doença e a vacinação segue ainda a passos lentos.

Tal realidade afeta a todos, e não seria diferente nos municípios do interior do Brasil. É o caso de Baependi, cidade-sede do JORNAL PANORAMA, que em janeiro chegou a ter mais de 100 casos em uma semana; reflexo das festas de fim de ano e do suposto clima de “relaxamento” que se instaurou no final de 2020.

Sobre esse e outros aspectos do impacto da pandemia no município foi que conversamos com o prefeito Douglas Staduto, o Douglas da Caixa, e o secretário de Saúde Tomé Peixoto. A entrevista aconteceu na sede do Executivo Municipal, antes da determinação da Onda Roxa em todo o Estado de Minas Gerais, seguindo todas as recomendações da OMS.

SITUAÇÃO DA COVID-19 EM BAEPENDI

Tomé Peixoto – A situação nossa é de atenção, de estado de alerta. Nós conseguimos reduzir o número de casos de covid-19 através das medidas restritivas, Dos decretos que fizemos, das campanhas, das fiscalização. Estamos com o contágio em controle. Os casos foram caindo, mas não é o momento de relaxarmos; porque se relaxarmos as medidas de distanciamento social, essas medidas restritivas, com certeza teremos um pico maior. Estamos vemos que São Paulo, Rio de Janeiro, que são próximos à nós, estão com 100% de sua capacidade, o estado também já está saturando… O Sul de Minas ainda está numa situação um pouco confortável. Mas o prognóstico que estamos tendo é que os casos estão aumentando muito, as internações em UTI estão cada vez maiores, os leitos estão acabando. Então, o momento agora, é que a gente mantenha todas as medidas: o uso de máscaras, a higienização das mãos, distanciamento social. Todos esses protocolos não podem ser abandonados. Nós estamos avançando na vacinação aqui em Baependi; já figuramos entre as cidades que mais vacinaram por percentual de população. Tudo que tem que ser feito pela secretaria de Saúde estamos fazendo, avançando cada vez mais na vacinação, que é a única alternativa mais permanente. Esse é o panorama que temos hoje. Um panorama de calmaria, por enquanto, mas muita cautela para que não aconteça o que aconteceu em janeiro: saturar o leitos e não ter mais leitos aqui nem nas microrregiões, nas regionais de saúde.

Douglas Staduto – Chegamos a ter 41 casos em um dia. Em uma semana, tivemos 125. Muita coisa para uma cidade do tamanho de Baependi.

Tomé Peixoto – Tivemos no mês de janeiro quase o dobro de casos que tivemos em 2020. Reflexo de um desgoverno no mês de dezembro, relaxamento.

Douglas Staduto – Inclusive, vem antes das eleições. A coisa foi tomando uma proporção… As pessoas já estão cansadas de ficar dentro de casa. Se falava em covid, covid… Mas as pessoas foram relaxando, como se não houvesse mais nada. Essa é a verdade. E de repente, com as festas de fim de ano, as aglomerações foram tão grandes, que a coisa decolou. A gente teve que tomar certas medidas que não gostaríamos de ter tomado, nunca. Mas, graças a Deus, com essas medidas, conseguimos barrar. Foram três decretos que fizemos, restringindo algumas coisas, neste último nós fizemos um relaxamento de 2h para abertura do comércio à noite. Mas estamos de olho, de prontidão, se houver alguma demanda maior, estamos de olho para não deixar acontecer.

VACINAÇÃO EM BAEPENDI

Tomé Peixoto – O Estado está a todo momento recebendo doses e assim que o Estado recebe, ele faz a distribuição para as regionais de Saúde; as doses estão chegando periodicamente. A medida que recebemos as doses, analisamos os grupos que a gente tem dentro da faixa etária e estabelecemos os critérios para a vacinação. Todos os dias estão sendo divulgados os dados no site da prefeitura.

Douglas StadutoNa primeira remessa, recebemos 370 doses pelo número de profissionais de saúde do município.

Tomé Peixoto Esse número foi pelos profissionais cadastrados no CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde). O que o Ministério está fazendo: está usando os dados das campanhas anteriores da H1N1, o número de vacinados na época. Temos um cadastro aqui também, que temos 92% de taxa de cobertura de PSF. Sabemos o quantitativo de cada idade em cada micro área, em cada área, em cada PSF.

Douglas StadutoIsso nos dá um suporte muito grande para destinar a vacina a cada nicho. Hoje estamos vacinando de 80 a 84 anos, e veio um montante que cobre 63% dos nossos cadastros.

Tomé Peixoto – E à medida que for chegando mais doses, vamos avançando na vacinação. Só programamos a vacinação quando chegam as doses, porque uma previsão de vacina chegar, não podemos trabalhar com isso. A gente só lança cronograma de vacinação quando a vacina está no município. A partir disso, a gente faz mutirão. Estamos vacinando nas casas, os mais idosos, os acamados… Estamos em uma velocidade até avançada. O município também aderiu à Frente Nacional dos Prefeitos para compra de vacinas.

Douglas StadutoAssinamos o protocolo de intenções (ao consórcio da FNP) e estamos aguardando. Na verdade, isso é do Governo Federal, só que, se de fato, ele não conseguir cumprir, os municípios estão se colocando à disposição para fazer a compra.

Tomé PeixotoSe o PNI – Programa Nacional de Imunização – não responder à altura, os prefeitos se juntaram num consórcio para compra de vacinas e a gente já enviou projeto de lei à Câmara Municipal para autorizar o município numa possível disponibilidade da vacina, o município comprar a vacina para os munícipes. Tão logo isso se concretizar, o município vai poder adquirir vacina para imunizar mais rápido a população. A prefeitura tem por objetivo vacinar o mais rápido possível porque só assim vamos sair dessa crise de restrição de horário, de restrição destas questões. Vamos ter que mantê-las por um tempo, mesmo depois da população vacinada, até todos adquirirem imunidade.

Douglas StadutoEm torno de 70% (da população) tendo vacinado, já atinge uma faixa de imunidade, é a previsão da Organização Mundial da Saúde (OMS). Tem que ter 70% da população imunizada. Daqui a pouco é o pessoal só com comorbidades. A faixa que mais ataca é mais de 60 anos, mas essa nova variante tem atingido mais crianças.

Tomé Peixoto – A demanda agora também tem sido por UTIs Neonatais, UTIs infantis, que não era o caso ano passado. Por isso reforço a questão da população, mesmo depois de imunizada, manter o distanciamento, manter o uso de máscara, porque temos que manter essas questões até que tenhamos uma imunização acima de 70%, uma imunização maior para adquirirmos uma imunidade maior. Lembrando que estamos fazendo todos os esforços, todos os funcionários da secretaria estão empregados nessa demanda da vacina, assim que a vacina chega fazemos a logística de vacinação. O município seguiu rigorosamente a Nota Técnica da secretaria Estadual de Saúde.

Douglas StadutoInclusive o pessoal que faz o controle de endemias foi vacinado.

Tomé PeixotoTemos um percentual bem grande dos profissionais de saúde vacinados, praticamente todos. Os asilados, os funcionários do asilo, funcionários do hospital, os farmacêuticos, psicólogos, médicos, consultórios particulares, profissionais da saúde, mesmo particulares, foram imunizados. Seguimos rigorosamente a Nota Técnica da Secretaria de Saúde do Estado.

NOVA VARIANTE

Tomé PeixotoNão temos confirmação da nova variante em Baependi. Já foram enviadas amostras para a pesquisa da variante e todas deram negativo.

UTIs NO MUNICÍPIO

Tomé PeixotoAtualmente, temos três leitos disponíveis para covid-19.

Douglas StadutoNós já protocolamos um ofício na Regional de Saúde, em Varginha, pedindo mais dez leitos. Estivemos lá (na sede da Regional), eu, o Tomé e o Rafael Costa Cruz, administrador do hospital. Enviamos um oficio que já foi para Belo Horizonte, então, agora, temos que aguardar.*

Tomé PeixotoE o hospital está preparado para que, na hora que o Governo do Estado autorizar o credenciamento desses dez leitos, funcionar imediatamente. Nós só podemos funcionar assim que o estado credenciar esses eleitos. Quanto à UTI Neotanal, é um suporte muito maior, envolve muitas questões, mas nós temos em São Lourenço, que é nossa referência.

Douglas StadutoAté porque ela vem de encontro da nova variante. Graças a Deus não temos nada aqui. Se precisarmos lá na frete, vamos ter que recorrer.

Tomé PeixotoEstamos atuando em várias frentes. Na prevenção, na criação de leitos, na compra de vacinas… Todas as possibilidades que têm hoje. Estamos lutando para mitigar o máximo a propagação do vírus em Baependi.

DECISÕES DO COMITÊ

Douglas StadutoO Comitê de Crise do Covid é deliberativo. Participam todos os representantes da sociedade, são 21 pessoas. É debatido o atual cenário e uma projeção do cenário. Desde a primeira reunião do comitê de crise, deixei claro que eu não participaria. Ele é deliberativo e o que fosse decidido, eu decretaria. E estou respeitando isso. É a sociedade que tem que definir, não posso puxar pra mim essa responsabilidade – apesar de eu ser o responsável pelo decreto – mas a sociedade tem que participar. Tivemos um primeiro decreto até suave, o segundo tivemos que apertar e o terceiro relaxamos um pouquinho, tudo com base em decisão do comitê de crise. Cada um coloca sua decisão e é debatido e votado.

Tomé PeixotoE os nossos casos caíram. Para o nosso decreto, fizemos um estudo, um gráfico com a curva de contágio e a taxa de letalidade. O decreto é o seguinte: para as medidas implementadas hoje, gastamos 15 dias para retificar alguma melhora nos índices, para ver se as medidas foram realmente efetivas. Fizemos um estudo, por duas técnicas da secretaria municipal de Saúde, que demonstrou que a partir do decreto, essas medidas foram essenciais e definitivas, porque mostrou que a curva de contágio e a taxa de letalidade caíram. Esses decretos são baseados em evidências científicas, adotadas no mundo inteiro. Temos que trabalhar com as evidências que temos hoje, evidências científicas. Todas essas decisões tomadas pelo comitê foram amplamente debatida pelos seus membros, que têm representação igualitária de todos os segmentos da sociedade. Temos membros de corpo clínico que dão pareceres científicos, com base em evidências, e também os representantes da sociedade civil. Tudo é amplamente debatido e discutido. Só depois que as decisões são enviadas ao prefeito.

Douglas StadutoInclusive, há também uma análise do jurídico da prefeitura, porque não pode ser feito de qualquer jeito. O jurídico analisa para ver se não está afetando qualquer norma constitucional para fazermos a coisa legal.   

Tomé PeixotoAproveitamos o momento também para nos solidarizar com todas as famílias que perderam entes querido devido à covid-19. Nós ficamos entristecidos com todas essas vidas que foram ceifadas.

Douglas Staduto – A gente quer que as famílias tenham seu conforto, mas é necessário que cada um faça sua parte e a gente está tentando fazer a nossa parte, mas tem que ter a colaboração da sociedade: o uso de máscara, higienização das mãos, distanciamento social… Tudo isso é necessário. Se não houver compreensão da sociedade, se a sociedade não tomar pra si a sua responsabilidade, não adianta. O decreto nada mais é do que um meio de forçar que cada um tenha seu papel. Mas, infelizmente, às vezes as pessoas não compreendem. A gente entende o comerciante da noite, ele precisa ter seu ganha pão. Mas o que a gente pode fazer? Se você abre, a aglomeração vem porque a falta de consciência é muito grande.

Tomé PeixotoO decreto nada mais é do que a gente não colapsar o nosso sistema de saúde, porque depois que colapsar, não vai haver vaga. E na UTI não cabe mais um. Na casa, no carro, na festa, pode caber mais um, mas na UTI não cabe. Aquele leito só cabe um paciente. O decreto e as medidas restritivas vêm justamente pra isso, pra impedir que o sistema de saúde seja colapsado. Se todo mundo chegar junto lá na UTI não vai ter vaga, mas se a gente restringir, colocar as medidas em funcionamento, vamos dar um fôlego ao sistema de saúde. Aquele paciente que está lá vai sair pra gente liberar aquele leito. E com isso, a gente salva vidas. Se ele tem o suporte adequado, ele tem a chance de sair, chance de viver. Isso nós não vamos deixar faltar para nenhum baependiano. A chance de poder lutar, caso venha a adquirir o vírus, se chegar a esse ponto, para que todo baependiando possa ser assistido e tenha o direito de lutar contra a doença.

Douglas StadutoTambém criamos na secretaria a equipe Sentinela, justamente para acompanhar e monitorar os casos positivos da cidade.

FISCALIZAÇÃO

Douglas StadutoOs fiscais visitam os comércios, e a primeira visita é orientativa. Já na segunda visita, se reincidir, aí existe uma multa, e se acontecer novamente, pode acontecer de lacrar o estabelecimento por 30 dias. Se existe uma norma, que é o decreto, tem que ser cumprida. Se a gente não fiscaliza, estamos tomando a mais essa responsabilidade. Temos hoje 12 fiscais que trabalham em turnos.

ATOS DE VANDALISMO

Douglas StadutoForam cinco casas atacadas. A minha, do Tomé, da secretária da Vigilância Sanitária e de mais duas pessoas do Comitê de Enfrentamento à Pandemia da prefeitura, da qual fazem parte prefeito, secretários de saúde e de vigilância sanitária e as coordenadoras. Foi uma covardia sem tamanho. A gente tá tomando precaução, preservando vidas. Não queremos acusar ninguém, mas a gente entende que as pessoas estão ficando no prejuízo, mas não é uma coisa que nós impusemos, é uma coisa que o mundo não sabe o que faz. A ideia nossa é amenizar. Estamos fazendo nosso papel pelo bem da sociedade. Existe a possibilidade de o Estado inteiro entrar para a Onda Roxa. Vamos ter que cumprir até toque de recolher. Pode chegar até esse ponto.

Tomé Pexoto Nós estamos em amarelo na questão de leito ainda, a nível Brasil. Nossos leitos estão acabando. A SES decretou que o leito não é mais da microrregião, e sim do estado; podemos receber pacientes de todo o estado. Sobre a pichação dos muros, isso é uma atitude covarde, de uma pessoa que não respeita as regras, e o único intuito que temos é salvar vidas. Sei que as medidas são duras, às vezes vai de impacto com a questão econômica. Entendemos isso, procuramos criar um mecanismo para não impactar tanto, mas é inevitável que essas medidas não impactem. As autoridades estão cientes. Ministério Público, Polícia Militar e Polícia Civil já abriram inquérito e logo conheceremos os autores dessas pichações. Vejo como uma agressão à sociedade; não está agredindo os membros do comitê, mas toda uma sociedade.

Douglas StadutoTivemos apoio de vários órgãos controladores, tanto do estado, como a COSENS (Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Minas Gerais) e a Regional de Saúde de Varginha, como da CONASEMS (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde), OAB de Baependi, Cepalb (Conselho De Pastores Baependi).  

*Nota da redação: na data da entrevista, o município ainda não havia sido credenciado para a abertura de mais 10 leitos de UTI no Hospital Cônego Monte Raso nem havia sido decretada a Onda Roxa em todo o Estado. Tal autorização das novas UTIs foi dada no dia 16 de março e a Onda Roxa passou a valer em 17 de março. Mantivemos a palavra dos entrevistados em respeito a eles e a todos os leitores, partindo do princípio da transparência e da credibilidade da imprensa.