Por Gilberto Furriel

Neste pequeno ensaio biográfico, tratarei das descobertas que fiz nos arquivos de Aiuruoca referente a Maria Joaquina, irmã da Beata Francisca de Paula de Jesus, Nhá Chica. Consegui, através do lastro deixado por outros historiadores e, principalmente, do inventário dos bens de Maria Joaquina, identificar os únicos parentes de Nhá Chica. Sem pretensões, este breve estudo poderá auxiliar no encontro de contraparentes da Beata, que, muito provavelmente, desconhecem este elo familiar.

Sabe-se que a Beata Francisca de Paula de Jesus tinha dois irmãos, Theotônio Pereira do Amaral e Maria Joaquina. Theotônio Pereira do Amaral, teve seu óbito lavrado em Baependi no dia 02/04/1861, com testamento onde declarou não ter deixado herdeiros, “casado em Facie Eclesiae com Eliodora Maria de Jesus, de cuja união nam temos filhos nem tenho herdeiros forçados” citando, ainda, a irmã Maria Joaquina:

 “…Deixo a minha irmam Maria Joaquina, casada com Joam Garcia morador no Paiol, Termo da Vila de Ayuruoca a quantia de quatrocentos mil reis, quantia esta que ser-lhe-á entregue pessoalmente; e no caso de ter fallecido, ou fallecer, passara aos seus filhos…”

Paiol era a antiga fazenda da Família Garcia, que deu origem a cidade de Minduri/MG. A cópia do inventário de Theotônio Pereira do Amaral foi-me gentilmente cedida pela Sra. Amália Vilas Boas Sales Moreira. 

Cogitava-se que Maria Joaquina era irmã de Nhá Chica e Theôtonio apenas por parte de pai, contudo, em recentes pesquisas, encontrou-se no livro nº 01 de casamentos da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Porto, em Andrelândia, o assento de casamento de Maria Joaquina, ocorrido em 26 de agosto de 1837, constando ser filha de Isabel Maria, como poderemos observar:

“A 26 de Agosto 1837 na Caza de Dona Theresa Romana por provisam da Vara da Vila d’ Aiuruoca, e Oratório e Altar ahierecto, feitas as deligencias do estilo, e dispençados recebi em Matrimônio os Contraentes João Garcia da Silva meoParochiano, e Maria Joaquina da Silva, filha d’ Isabel Maria natural de S. João d’El Rey, em prezenças das Testemunhas Antonio Cintra, e Joze Garcia do Spirito Santo ambos pardos, e as quatro horas da tarde, e lhe dei as bênçãos, de que para constar fis este assento” – O Vig. Francisco Joze de Souza Monteiro”

O Referido assento de casamento foi encontrado e transcrito pelo Dr. Marcos Paulo de Souza Miranda. Pelo exposto, fica comprovado que Maria Joaquina era de fato irmã uterina de Nhá Chica e Theotônio. Tal afirmativa está respaldada no recém-descoberto testamento de Izabel Maria da Silva, mãe de Nhá Chica, pelo Dr. Antônio Clarét Maciel Santos, no qual é declarado três filhos do mesmo ventre, a saber: Theotônio, Francisca e Maria, esta última casada com Joam (João) Garcia. Segundo o mesmo documento, podemos verificar que Maria Joaquina recebeu o nome de sua avó materna, Maria Joaquina, fato muito costumeiro entre as famílias, repetir, como forma de homenagem, os nomes familiares de geração em geração.

Maria Joaquina foi legatária no testamento de sua tia e madrinha, Tereza Romana da Silva, nascida e batizada na Capela de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, São João del-Rei, filha de Luiza da Silva de Miranda e Antônio Pereira Lopes, casada com João Garcia do Espírito Santo filho de Diogo Garcia, este filho de outro Diogo Garcia e de Júlia Maria da Caridade (livro “As Três Ilhoas” de José Guimarães) casado em 23/09/1790 em Serranos/MG com Antônia Domingues da Ressurreição, filha natural de Ana, escrava que foi de Lourenço Leme de Brito, conforme pesquisa de Moacyr Urbano Villela. O testamento de Teresa Romana da Silva foi consultado por mim e encontra-se na Caixa II da Testamentaria do Arquivo do Fórum da Comarca de Aiuruoca, segue trecho:

“…Eu Teresa Romana da Silva, filha natural de Luiza da Silva de Miranda, nascida e batizada na Capela do Rio das Mortes pequeno, Freguesia da Cidade de São João Del Rei…Fui casada com João Garcia do Espirito Santo, já falecido de cujo matrimonio não tive filhos…”…Ratifico doação de 12,5 alqueires de campos e matas a minha sobrinha e a filhada Maria Joaquina da Silva casada com João Garcia Junior; Com a obrigação de só poderem vender essas terras a Pedro de Alcantara ou Bernardo Jose Pereira ou a Lucindo Silva Braga…”…Fazenda do Paiol, em 14 de Maio de 1852, São Vicente, Termo da Vila de Aiuruoca…”

Ao que tudo indica, o marido de Maria Joaquina da Silva, João Garcia, pertencia à mesma família que João Garcia do Espírito Santo, marido de Tereza Romana da Silva. A família Garcia, de origem açoriana, radicou-se em São João del-Rei, terra de onde procedeu a Beata Nhá Chica e toda sua família. A propósito de João Garcia do Espírito Santo, foi batizado na Capela de Madre de Deus, filial da Matriz de São João del-Rei, tendo seu registro de batismo também lançado no livro da Capela de Santo Antônio do Rio das Mortes, São João del-Rei, conforme sua dispensa matrimonial (João Garcia do Espírito Santo e Teresa Romana da Silva) encontrado no Livro Misto, ano de 1802/1861 da Paróquia de Aiuruoca, hoje arquivado na Cúria da Diocese da Campanha.

Acreditamos que Maria Joaquina possa ser filha de Antônio da Silva Couto, único irmão localizado de Tereza Romana e também citado em seu testamento “Deixo a minhas afilhadas Barbara e Fortunata, filhas de meu irmão Antônio da Silva Couto já falecido”. Se nossa hipótese estiver correta, Maria Joaquina seria neta de Luiza da Silva de Miranda e Antônio Pereira Lopes, ambos naturais de Santo Antônio do Rio das Mortes, São João del-Rei. É interessante assinalar que, segundo o Dr. Marcos Paulo de Souza Miranda, a família Miranda foi doadora das terras onde fora construída a Capela do Rio das Mortes, local do batismo da Beata Nhá Chica.

Maria Joaquina e seu marido aparecem em 28/01/1839 na relação nominal do distrito de São Vicente de Minas e moradores em Minduri/MG, no fogo 22. Ele, pardo, roceiro, sabia ler e escrever, com 24 anos e ela também parda, costureira, com 36 anos, juntamente com um dependente de nome Manoel Lopes, pardo, com 2 anos, filho do casal, no caso, sobrinho-neto de Nhá Chica. Pela idade que dizia ter, Maria Joaquina teria nascido provavelmente em 1803. 

Em recentes buscas nos Inventários de Aiuruoca, sob a guarda do Escritório Técnico IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em São João del-Rei, encontrei o inventário de Maria Joaquina falecida na cidade de Minduri/MG em 07/04/1867, à época era distrito de São Vicente de Minas, aberto em 29/07/1867, onde consta a relação de seus filhos, todos nascido em Minduri/MG, a saber:

1. Manoel Francisco da Silva, casado, que, como vimos, aparece na lista datada de 28/01/1839, em Minduri/MG, distrito São Vicente de Minas, como Manoel Lopes. É relevante observar que, se Maria Joaquina for realmente neta de Luiza da Silva de Miranda e Antônio Pereira Lopes, a presença do sobrenome Lopes neste seu filho, reforça a nossa hipótese. 

2. Cândida Maria de Jesus, casada com Fernando Elias do Nascimento. Citada junto com seu filho Antônio no primeiro testamento da tia, Beata Nhá chica, datado de 06/12/1875: “A louça do meu uso e mais objetos de vidro que se acham na casa e do meu serventuário deixo ao Antônio filho da Cândida minha sobrinha”.

  • Antônio.
  • João do Nascimento, nascido na Fazenda o Paiol, hoje Minduri/MG, em 07/07/1878 e ali mesmo batizado no dia 27/08/1878, sendo padrinhos Generoso Elias do Nascimento e Dimiltides Teolinda da Silva.

3. Prudenciana da Silva, casada com Generoso Elias do Nascimento

4. Francisca Geralda do Nascimento, viúva, citada no primeiro testamento da tia, Beata Nhá chica, datado de 06/12/1875: Deixo à minha sobrinha Francisca, filha de meu cunhado João Garcia, na minha Chácara um terreno de quarenta palmos de dois lados e sessenta dos outros dois lados, (forma quadrilonga), que poderá vender dando sempre preferência a quem quiser beneficiar a capela com o dito terreno ou seu valor”. Em recentes buscas nos livros da Paróquia de Baependi, deparei-me o seu casamento, ocorrido em 29/09/1876, na Matriz, com o italiano Francisco Abrahão, o qual transcrevo na integra:

“Aos vinte e nove dias do mês de setembro de mil oitocentos e setenta e seis anos, nesta cidade de Baependy, e casas de residência de Francisco Abrahão em altar erecto ad hoc, dispensados os proclamas e provado o estado livre do mmos, sem as formalidades forenses, e certo de que é elle viúvo de Angela Maria e natural de Tortarella no Reino d’ Italia, o receby em matrimonio com Francisca Geralda do Nascimento fa.legma de João Garcia da Silva e de Joaquina………..desta paroquia de Bispado o nubente e fo.legmo. de Domingos Abrhão já falecido e de Celesta Roza também já falecida. Foram testemunhas do acto Salviano de Paula Brasiel e D. Francisca Iszabel do Amaral. Para constar se fez este assento que assigno. Vig. Marcos Pereira Gomes Nogueira”

5. Silvestre Justiniano da Silva, solteiro, 21 anos que não tinha a certeza que estava completo. Em buscas nos livros da Paróquia de Aiuruoca, consegui localizar os batismos de seus filhos e o nome de sua esposa, Dimiltides Teolinda da Silva, todos batizados em Minduri/MG:

  • Jose da Silva – Batizado em 24/06/1874.
  • Maria da Silva – Batizado em 29/09/1877, sendo padrinhos Francisco da Silva Couto e Rita de Cássia Bragança.
  • Antônio Justiniano da Silva – Casado com Francisca Honoria da Silva e morador em Nova Rezende/MG, em 21/02/1898.
  • Josephina da Silva – Batizado em 12/01/1881. 

De todos os sobrinhos e sobrinhos-netos da Beata Francisca de Paula de Jesus, a Francisca Geralda do Nascimento chama-nos a atenção, pois, seria a única a se casar na terra da tia, Baependi. Anexo, segue cópia do arrolamento de herdeiros existente no inventário dos bens que ficaram por falecimento de Maria Joaquina, declarados por seu inventariante o marido, João Garcia da Silva. Ano de 1867. 

Artigo produzido por Gilberto Furriel