Walfrido Antônio é desses mineiros de melhor cepa. Com voz e emoção de radialista, fez do Kardecismo sua profissão de fé e a forma de compartilhar o Amor universal junto ao próximo. Nas manhãs dos finais de semana, coloca a viola na sacola e sai visitando asilos, hospitais, creches, para cantar a beleza da vida e espantar os males da alma. Um dia, chegou a uma casa de recuperação, sacou o violão e saiu pelos corredores, salas, quartos, cantando as serestas enluaradas, até chegar ao quarto em que uma jovem esguia adormecia, entre o sonho e a ‘frialdade inorgânica da terra’. Ele cantava empolgado antigo sucesso do cancioneiro popular, quando a jovem o puxou pelo braço, como quem perdeu o ‘trem e a esperança’, o olhou no mais fundo dos olhos, e pediu com voz embargada e acuada: “Toca Toninho Horta para mim…”. Walfrido sentiu a estocada, viu por detrás dos olhos lisérgicos a pobre menina rica que era tragada e respondeu em lamento profundo: “Toninho Horta… ah, eu não sei Toninho Horta, meni…”, ela nem esperou a resposta e em uma ânsia de quem quer segurar o tempo com as mãos e o vê escapar lentamente por entre os dedos, emendou: “Lô Borges, toca Lô para mim, Francis Hime, Tom Jobim, ah, toca um Jobim…”. Walfrido, em sua generosidade xavieriana, cabisbaixo, lamentava não ter mãos para alcançar a última estrela da noite sem lua e colocar na palma da mão daquela meninazinha que queria apenas um trago de poesia, um sopro de esperança, naquela fria manhã que tarde nascia.  

Juarez Moreira, anjo e arcanjo de São Miguel e Almas, empunhava sua espada transfigurada em guitarra e duelava com esse surdo mundo moderno, tocando as músicas eternas, as dele e as de todos, em palco improvisado dos bares da vida noturna da Belo Horizonte de todos os mineiros. Tocava as canções mais belas, enquanto à porta, um mendigo etílico que ninguém percebia, se esgueirava entre as mesas e o palco, buscando uma forma de ouvir melhor o som que era ignorado. À primeira mesa ao lado, um jovem se contorcia entre risos e modulações, na busca efêmera de chamar a atenção na noite que não era só dele. Juarez, com sua dignidade infinita, se esmerava no sombrio palco, buscando o melhor som para uma gente que queria melhor nada. E Juarez se superava, para a música que melhor era executada. O mendigo lá, à porta, ouvindo o som da guitarra que sozinha gritava a dor de todos os esquecidos. E como quem que já bebeu o cálice divino da elevação humana, o mendigo não suportou, se aproximou da mesa e protestou para o som que não se ouvia: “Isso é Coltrane, pô!”. A turma se silenciou e o som da mais pura melodia escorreu pelas mesas do bar, invadiu a rua, passou pelas avenidas, cruzou as praças e cobriu toda a cidade com a mais bela e clara harmonia.

Hoje, todos os dias, me lembro daquela menina triste com olhos de lua que sempre amei… como eu queria mostrar para ela minha parceria com o Toninho Horta, que fala de um anjo negro que pelo céu voou e entre nós pousou, para anunciar o amor sem cor, só alma e coração. Ah, eu iria ser o namorado dela. Agora, todas as noites em que estou em bares de jazz, sempre olho para a porta procurando o mendigo que aprecia John Coltrane. Queria convidá-lo para sentar à mesa, ouvir tranquilamente um solo de primavera e saber de seus sonhos, sua história, seus amores. Como eu queria ser amigo dele.

Assim, como a música que alguém um dia cantou e se foi com o vento, todos se foram com o tempo. De tudo isso, só me restou a singela certeza de que em algum momento eu estive com eles, eu me encontrei com eles, em um show de jazz, na porta de uma padaria, em uma tarde triste sem poesia.

Petrônio Souza é jornalista e escritor