Dia 15 de maio foi comemorado o Dia da Assistência Social e o JORNAL PANORAMA entrevista a profissional Valdília Toledo sobre os obstáculos da área

Você sabe qual a diferença entre serviço social e assistencialismo? Embora as palavras sejam parecidas, os significados são bem diferentes. Serviço social é uma profissão de nível superior regulamentada e reconhecida pelo MEC, exercida pelo assistente social; já o assistencialismo é uma forma de oferecer um serviço por meio de um favor ou até mesmo interesse pessoal.

No mês em que se celebra o Dia da Assistência Social – 15 de maio –  o JORNAL PANORAMA conversou com a assistente social Valdília Amorim Toledo, de Caxambu, para saber um pouco mais sobre a profissão e os desafios enfrentados, especialmente em tempos de pandemia. Valdília ingressou no curso devido a um problema de saúde de sua filha, Elaine Cristina, que tinha leucemia. “Constatei pessoalmente o empenho dos profissionais de saúde, inclusive e principalmente dos assistentes sociais durante todo o tratamento da leucemia”, confidenciou. Valdília também é mãe de Rennan Toledo.

Valdília e a filha, Elaine

O curso se tornou um desejo da filha, que afirmava que assim que fosse liberada do tratamento, gostaria de trocar de faculdade – na época, Elaine cursava fisioterapia. “Assim, atendendo a um desejo dela (e o meu), fizemos o vestibular. Ambas fomos aprovadas e concluímos o curso. Naquela época ela estava bem, mas logo veio dificuldade de locomoção. Em 2011, concluímos e mesmo debilitada, ela chegou até o fim do curso. Mas, lamentavelmente, ela não pôde exercer a profissão e eu achei que exercendo, estaria a homenageando”, conta a assistente social.

Segundo ela, é uma profissão altamente gratificante, já que o assistente social atua contra a desigualdade em prol do bem-estar social. Para Valdília, exercer o serviço social é uma forma de retribuir todo o carinho que ela e a filha receberam de toda a população, não só de Caxambu, mas de toda a região.

Carreira

Como qualquer profissão, o assistente social tem desafios e obstáculos a serem enfrentados no dia a dia. Valdília destaca alguns, tais como falta de conhecimento sobre a função, lidar com pessoas em situação de vulnerabilidade, problemas com recursos financeiros por parte de entidades governamentais, dificuldade de se aproximar de quem realmente precisa do serviço. “E, por último, dificuldade em dar conta do trabalho, pois o que não falta é serviço num país onde a desigualdade social é imensa; mostrar que temos que acreditar que sem luta não há vitorias”, afirma.

A experiência na área a levou a lutar ainda mais bravamente pela recuperação da filha, que precisava de um transplante de medula óssea. “Como no Redome (Registro de Doadores de Medula Óssea) naquele ano [2001] só tinha cadastrado 37 mil doadores e a chance de achar um doador era de 1 a cada 100 mil, resolvi fazer uma campanha para captação de doadores de medula óssea para achar um doador compatível para Elaine. Com a campanha ‘A solidariedade também cura, seja um doador de medula óssea!’ levamos mais de 80.000 doadores, não conseguimos um doador para Elaine, mas salvamos vários pacientes que estavam aguardando um doador”, relembra Valdília Toledo.

“Com a nossa campanha, conseguimos fazer a primeira campanha externa aqui em Caxambu em 2004. Conseguimos trazer o hemocentro até os doadores. Na época eu levava toda semana de 4 a 5 ônibus para o Hemorio.  E graças a nossa campanha, várias pessoas abraçaram a causa e começaram a fazer [doações] também. E hoje, o Redome está com mais de quatro milhões de doadores”, conta.

Em sua carreira como assistente social, Valdília destaca o tempo trabalhado na Assistência Social de Caxambu. “De 2013 a 2016, em Caxambu, exerci, com grata e enorme satisfação, a função de assistente social, e depois de Coordenadora do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social na Secretaria de Assistência Social)”, conta. Ela também atuou como assistente social no município de Conceição do Rio Verde. “Naquelas oportunidades, tive o prazer de prestar meus serviços aprendidos na faculdade, bem como constatar o quanto o povo é carente nessa área, e – porque não dizer? – em outras”, constata.

Serviço social e pandemia

E qual o papel do assistente social neste momento de pandemia? Valdília explica: “Nesse quadro, além dos cientistas, médicos, enfermeiros, enfim, dos profissionais da saúde como um todo, não devemos nos esquecer do assistente social, que obviamente não deixa de ser também um desses profissionais. O tal do ‘inimigo invisível’ afeta e atinge todo o planeta. As nossas autoridades ainda não chegaram a uma conclusão do que deve ser feito quanto às recomendações para a população (isolamento social, higienização, etc.). É claro que esse atual quadro ocasiona o desemprego, subemprego, problemas de moradia, fome e abastecimento de um modo geral. Lavar as mãos é uma orientação básica, mas nem todos têm água em casa para lavar as mãos. Isolamento social é outra orientação mais do que básica. Porém, a Organização Mundial da Saúde e nosso Ministro da Saúde dá uma diretriz. E é nesse contexto que entra o assistente social (e os demais profissionais da área da saúde), sendo necessário um reforço hercúleo para efetivação da Seguridade Social Pública, através de implantação de políticas públicas de saúde”, argumenta.

Caminhos do serviço social e a política

O serviço social e a carreira como assistente social levou Valdília a outros caminhos, sem nunca esquecer a sua luta pela profissão que escolheu. “Me deparando com tanta desigualdade social, onde muitas vezes a política pública não é aplicada, acredito que tenho potencial para acreditar numa política correta, organizada para um bom trabalho a ser realizado em prol da população. E a política se faz necessária, pois quando uma pessoa quer fazer algo correto ‘isso é política’. Essa é a bandeira que eu acredito: com planejamento e projetos, podemos acreditar que todos somos capazes e merecemos respeito, acima de tudo”, conta. Atualmente, Valdília atua na política local como presidente do Partido Progressista de Caxambu. “Onde, mesmo assim, na medida do possível, continuo na luta com a visão de assistente social”, completa. Sem vínculo com nenhum pré-candidato ou qualquer outro político da cidade, Valdília está disposta a apoiar aquele com propostas benéficas à população.

Aos leitores do JORNAL PANORAMA, Valdília deixa uma mensagem de otimismo e esperança. “O filósofo grego da era pré-socrática, Heráclito, afirmou: ‘panta rei’; em grego, ‘tudo passa’. Ele era defensor da tese de que ‘tudo passa’, tudo na vida é passageiro. E deu como exemplo um pensamento que continua até os dias atuais: uma pessoa não pode se banhar no mesmo rio duas vezes. Então, tenhamos pensamento positivo no ‘panta rei’, tudo passa. E, com certeza, passará”, finaliza.

Fotos: arquivo pessoal