Na minha coluninha do dia  4 de maio de 2020 (eita aninho complicado este…) teclei assim:

“Tecnologia é movida a dinheiro também. E jamais, nunca e em tempo algum, nenhum pesquisador viu tanto dinheiro assim. A comunidade internacional despejou hoje, exatamente hoje, dia 4 de maio de 2020, a impressionante quantia de 45 bilhões de reais ou 7.5 bilhões de euros no negócio. Tenho a impressão que é um valor nunca antes neste planeta investido em um medicamento. Para se ter uma ideia, o poderosíssimo EUA tinha em torno de míseros 600 milhões de dólares na produção, ainda assim com participação da indústria privada (Sanofi).

Li, nem sei onde, que os EUA não leva mais o homem à lua porque fica em mais de 10 bilhões de dólares, quinta parte da grana investida hoje para produzir a vacina contra o covid-19. Então, quero dizer, é dinheiro pra xuxu. Aí talvez, possa acontecer mesmo, de termos uma vacina eficaz e segura antes do fim do ano. “

Ontem e hoje – dia 18 e 19 de maio –  os jornalões reverberaram. É manchete hoje de todos os grandes jornais! Temos todos que concordar que com um atraso danado. Às vezes fico pensando do porquê que os jornalões detestam boas notícias? Mas aí é outro assunto.

Mas o que eu acho desta vacina saída assim a toque de caixa? Fico ressabiado. Logo eu, fã de vacina e pró-vacina convicto, com ódio dos grupos antivacina, que tanto mal faziam e fazem (sim, ainda existem!).

Todos sabem que tenho conflitos de interesse né… Sou dono de uma clínica privada de imunização. Pois é, isto mesmo.

Julgo vacina poção milagrosa. Uma coisa mágica. Como pode um frasquinho evitar tanto sofrimento, tantas mortes, de crianças mas também de idosos! Certamente eu digo agora que o covid-19 vai se ver com ela! Vamos acabar com a empáfia e “mitideza” deste marginal, malfeitor e desgraçado! Ainda demora um pouco, mas ele que espere a nossa heroína.  Ela, a Sra. Vacina.

Só que tenho por mim que apesar do drama, do planeta que sangra, não deveríamos pular etapas. Que demore o tanto que precisar, mas que não se queime etapas.

Pode-se argumentar e, se há leitor desta coluna, ele decerto pensará: “tio Edson endoidou de vez. Se pode ter vacina amanhã, arregaço minha manga é ontem”.

Acontece, meu solitário leitor, que a doença vem devagar, vai ceifando aos poucos, vai judiando. A gente se esconde aqui e ali, ela nos pega acolá, a gente dá um drible, ela dá uma canelada e vamos e vamos e vamos levando. Embora, tristemente, pelo caminho vai se ficando pessoas queridas, vai morrendo gente que pode inclusive ser a gente.

Uma vacina vai ser aplicada em bilhões de pessoas ao mesmo tempo, quase. E se vem por descuido com um veneno dentro? Dizima ou aleija é uma sociedade inteira, o mundo inteiro, lasca é com todos. Aí é que está. E já aconteceu em menores proporções com outras vacinas.  

Estas duas vacinas nós já tínhamos falado das cujas lá atrás, neste mesmo espaço que me tolera. Foi em abril, veja bem: parece que foi há um século, mas falamos há 40 dias.

São estas mesmo aí que foram turbinadas com a grana. Me parece que a americana segue uma metodologia mais justa, mais adequada, é tecnologia genética e em tese mais segura. A de Oxford (que prometem para agosto ou setembro) usa fragmentos virais e não parece que confere imunidade duradoura e nem em todos os vacinados. Há quem fale que não imunizaria mais de 40% dos vacinados.

A vacina americana, que vai ficar pronta depois (talvez em fevereiro) imunizou na fase 1 de testes em humanos, os 8 voluntários – 100%. Agora, há 2 dias, iniciou-se em 600 cabras valentes da peste. Saberemos o que deu em agosto/setembro, se houve efeitos colaterais e se é eficaz mesmo. Mas promete, se não a bolsa de valores não tinha dado o salto que deu.

Tem outra questão que não está posta, ainda. Daqui a pouco, os jornalões escrevem. Mas o raro leitor desta coluninha já fica esperto agora. Quem acredita que vão dar esta vacina aqui pro lado de baixo da linha do equador, isto antes dos ricaços lá de cima serem imunizados, está muito enganado. Se for vacinar lá em cima em setembro, pode contar que aqui embaixo só chega depois de uns 6 meses e olhe lá, vamos ter despejar um caminhão de dinheiro. Estes caras exigem graça mas não fazem graça. Nunca fizeram. De graça eles só dão palpites, conselhos e umas migalhas.

Se serve de consolo, a brasileira será a melhor que a deles. Sem ufanismo. E sem dinheiro também, é claro. Mas a turma daqui está seguindo a cartilha, a metodologia tim-tim por tim-tim. Sairá só lá no segundo semestre do ano que vem, a nossa. Será Ela, a Sra Vacina!

Dr. Edson Lopes Libanio é o atual Presidente da Regional Sul da Sociedade Mineira de Pediatria (pela 5º vez). É diretor Médico da Clínica Baependi. Foi diretor algumas vezes da Sociedade Mineira de Pediatria e da Sociedade Brasileira de Pediatria. Foi Auditor Médico do Ministério da Saúde por 30 anos. Foi Pediatra da SES MG. Tem inúmeros outros cargos classistas em sua história de vida, desde Diretor Clínico do HCMR algumas vezes até da diretoria da AMMG. Mas gosta de ser apresentado mesmo como um Pediatra do interior.