Escrevo no dia 27 de abril. É bom teclar, a coisa muda toda hora, imagine no dia a dia.

Pois não tem sido fácil boas notícias. Tem que campear!

Neste fim de semana, na lida de quarentena, me debrucei sobre alguns números. Longe de querer me fazer de aprendiz de estatístico ou de profeta.

Vou falar sobre acontecido. E sobre o mono assunto que ora campeia: o meliante Covid19.

Até ontem, os Estados Unidos era o líder nos casos e nos óbitos, com o assustador número de quase 60.000 mortos. Em seguida a Itália, também em números redondos, impressionantes 27.000 mortos e depois a Espanha com 23.000 casos. Assusta, sim, o número de mortes pela população relativamente pequena destes dois últimos países (Itália tem 60 milhões de pessoas, embora em território pequeno, o que facilita a aproximação de pessoas – a tal densidade demográfica alta que é a preferência do dito cujo).

A China não conta. As informações de lá, vamos dizer assim, não são exatas.

Dito isto vamos ao Brasil, com um número de 4.200 óbitos. Sim, claro, a epidemia aqui iniciou depois. Mas não muito depois dos Estados Unidos, 1 ou 2 semanas talvez.  Em todo caso temos uma população enorme, muito mais pobre e temos por enquanto menos de 10% dos óbitos dos EUA.  

Mas queria falar da nossa gente. De Minas Gerais e de Baependi. Curioso que o primeiro caso de morte registrado no Brasil foi em MG, em 23 de janeiro.  E hoje é um dos estados com menor taxa de casos em relação a população.

Aqui na terra de Nhá Chica: Zero óbito. Zero caso. 0 x 0.

Lembrando que nossos vizinhos a menos de 150 km, então pertinho, em São Paulo até ontem 1700 óbitos! Rio de Janeiro, 647.  

E Estados com população muito menor que o nosso tiveram mais casos. Aliás, muito mais. Pernambuco, 647 óbitos; Amazonas, 304, e o Maranhão, com população de menos de 30% a nossa, com absurdamente e tristemente 112 mortes pelo Covid19.

Minas Gerais foram 67 falecidos até ontem.

Cada vida é única, e a perda de uma vida é a tragédia humana que nos espera. Não pergunte por quem os sinos dobram, dobram também por ti (John Donne).

Mas o número é ínfimo, até agora se comparado aos nossos pares. Com 21 milhões de habitantes nesta Minas Gerais, tenhamos tido, repito, apenas 67 casos até ontem! Absolutamente incrível, ao menos a mim parece!

Mais um alento? Sim, temos mais um alento:  já obtiveram alta da UTI, curados, 58.6% dos afetados. Da UTI.  Então eu digo que quase 60% dos casos gravíssimos já estão fora da UTI, abrindo vagas, o que é essencial para o combate e para a taxa de mortalidade persistir baixa. Em nenhum outro Estado há número sequer parecido.

O que fizemos diferente dos nossos vizinhos? Qual o case de sucesso que podemos compartilhar? Sinceramente não sei tecnicamente, apenas suponho. Espero que algum de vocês, leitores, se há, tenha esta informação, a resposta que explique melhor e mais tecnicamente.

Para um exercício de suposição, sem compromisso com verdade estatística, como frisei na primeira frase desta coluninha, imagino que a nossa disciplina mineira fez antecipar e fazer um isolamento social mais expressivo e longo que os dos vizinhos, e nossa boa estrutura médica, bem distribuída, possam em parte explicar.  Mas principalmente nossas centenas de municípios pequenos (o que facilita o isolamento, controle, avaliação de decisões). Fora a zona rural grande com agricultura familiar que também facilita o isolamento.

Não estou cantando vitória antes da hora. Sou Atleticano e então escolado em reviravoltas, ainda mais com adversários desleais como este que ora enfrentamos.

Mas à luz de hoje vejo assim desta forma: em uma cidade vizinha daqui de Baependi, em TODAS as esquinas da cidade tem um cartaz: “É PROIBIDO CONVERSAR NESTA ESQUINA!”

Quem mais poderia dar e entender um recado mais direto que estes a não ser nós mineiros! Acho que aí está o desatado do nó górdio: é proibido conversar na esquina! Por esta o vírus maldito não esperava!

Outra questão é a máxima: mineiro só arrisca quando tem certeza! Acho que não pagamos para ver. Que continuemos, mesmo com comércio parcialmente e tempestivamente aberto com estas duas assertivas. Só arriscar se tiver certeza e não ficar de conversinha como sabiamente se ordena nas esquinas da cidade daqui ao lado.

E que as outras regiões do Estado e do País, porque não dizer do mundo, nos imitem, em que puderem. 

Dr. Edson Lopes Libanio é o atual Presidente da Regional Sul da Sociedade Mineira de Pediatria (pela 5º vez). É diretor Médico da Clínica Baependi. Foi diretor algumas vezes da Sociedade Mineira de Pediatria e da Sociedade Brasileira de Pediatria. Foi Auditor Médico do Ministério da Saúde por 30 anos. Foi Pediatra da SES MG. Tem inúmeros outros cargos classistas em sua história de vida, desde Diretor Clínico do HCMR algumas vezes até da diretoria da AMMG. Mas gosta de ser apresentado mesmo como um Pediatra do interior.