Bate Papo com o Doutor Edson Libanio sobre o coronavírus na Íntegra. A equipe do Jornal Panorama procurou o médico para explicar o contexto do coronavírus no mundo. Confira a entrevista completa:

Jornal Panorama: Bom dia, Doutor Edson. Obrigado por responder as questões formuladas pela equipe do Jornal Panorama:

Doutor Edson Libanio: Bom dia Bruno e obrigado pela oportunidade que me dá de expor minha opinião. Tudo tem acontecido de forma tão frenética que a verdade de hoje pode não ser a verdade de amanhã. Mas hoje dia 14 de abril vou procurar a verdade. Basear na publicação de hoje no JAMA (uma das mais respeitadas publicações médicas do planeta). Ainda que apenas parcialmente tenha seguida metodologia verdadeiramente cientifica, é o que temos de mais atual e vindo desta publicação muito séria

Jornal Panorama: Uma dúvida muita grande de toda população é quando teremos vacinas disponíveis para o novo coronavírus. Em todo mundo vem sendo estudado meios para conter essa pandemia. Há alguma previsão? O senhor é otimista em relação a essa questão? Há estudos avançando sobre o tema no mundo inteiro. Testes na china (inclusive com humanos), alguns avanços em Israel. No Brasil também estamos evoluindo neste sentido? A Doutora Ester Cerdeiro Sabino da USP conseguiu coordenar o sequenciamento genético do vírus. O senhor vem acompanhando esses estudos? Fale um pouco sobre cada um desses avanços?

Doutor Edson: Esta é em minha visão uma questão crucial, pois a maior esperança de controle desta terrível pandemia. Existem hoje várias vacinas em desenvolvimento no mundo todo. Tem se notícia de mais de 70 ensaios sérios hoje na tentativa de desenvolvimento de vacina eficaz e segura.  A mais promissora é da Johnson, que já está na fase 2 (testes em número restrito de seres humanos). Os testes ocorrem em Detroit, nos EUA. Tudo correndo bem estaria disponível em início de 2021. O que temos de mais consistente é esta. Uma também em Hong Kong em estagio 2, mas um pouco mais atrasada em relação a Americana, e ao que parece com perfil de segurança pior. Estaria adequada para aplicação em massa em 12 meses, isto é, em abril de 2021. Tem-se outra vacina, de dois importantes laboratórios que se associaram, um italiano e outro britânico, e que promete a vacina para setembro/2020, já em escala industrial. Pessoalmente acho muito difícil avaliar o perfil de segurança em tão pouco tempo. Vê-se que estes pesquisadores “pularam” fases importantes o que não deveria ser feito, mesmo em caso desesperador que estamos vivendo em alguns países. Sabe-se lá quais seriam os efeitos paralelos deste imunobiologico. O certo é que não podemos substituir uma tragédia por outra. Mas é minha opinião pessoal.  A notícia é que vão testar em final deste mês em 550 voluntários no Reino Unido. Em seguida em larga escala, e em maio ou junho. Neste caso a vacina já estaria disponibilizada em setembro, daqui há 4 ou 5 meses!

Outras vacinas, inclusive uma Brasileira, no instituto do coração (Adolfo Lutz) é conduzido pela genial Dra. Ester e sua equipe, que você bem cita. Está bastante adiantado o estudo, embora em fase 1, testes em cobaias.  É muito promissora, e seguindo todas as fases obrigatórias na produção segura de um imunobiologico, como deve ser. A previsão é de estar disponível em 15 a 24 meses. Isto é em junho do ano que vem, pouco mais ou pouco menos que isto. Parece muito, mas não é se lembrarmos que a vacina mais rapidamente produzida até hoje demorou 5 anos. E normalmente o desenvolvimento de uma nova vacina leva entre 10 e 15 anos.  Sou um otimista incorrigível: penso que teremos uma ótima vacina, ou ótimas vacinas ao inicio de 2021, não antes.

Jornal Panorama: Para a construção de uma vacina existe todo um processo cientifico e burocrático até estar 100% liberada. O senhor acha que neste caso da pandemia algumas etapas podem ser puladas para chegar mais rápido até a população?

Doutor Edson: Não acho que deveria ser “pulado” etapas. O perfil de segurança deve ser muito bem avaliado para não se trocar um grande problema (que é a pandemia) por outro grande problema em maior escala ainda, já que toda a população seria exposta.

Só por força de argumento: uma vacina contra rotavirus, uma doença mortal e muito frequente foi vista como tábua de salvação, há aproximadamente 14 anos. E foi aplicada em milhares de crianças. E centenas faleceram ou foram acometidas de intuscepção intestinal … (“nó nas tripas”). Só 7 anos depois tivemos uma vacina segura, depois de todas as etapas vencidas. A vacina atualmente aplicada na rede pública é espetacular e seguramente responsável por muitas vidas salvas de bebês.

Acho que estas poções magicas e milagrosas, que são as vacinas, são uma arma tão importante, poderosa, delicada e eficaz que não podemos arriscar e banalizar sua produção. Mesmo com esta mortalidade que estamos vendo em alguns Países. Neste caso a vacina tem que chegar para resolver o problema definitivamente, e com segurança. Não tem que fazer meia boca.

Jornal Panorama: Há uma disputa política enorme entre o presidente Jair Bolsonaro e o Ministro da Saúde Henrique Mandetta sobre toda a questão da cloroquina. O que senhor consegue falar sobre essa questão? É possível relaxar o distanciamento social e apostar na cura dos doentes com a cloroquina como defende o presidente?

Doutor Edsons: Os estudos recentes tem-se mostrado frustrantes com relação a cloroquina e mesmo com relação a outros antivirais. Já testaram vários medicamentos de forma empírica e o JAMA conseguiu reunir todos neste artigo de hoje, nesta reanálise pouco elegante e não randomizada. Mas é o que temos, hoje, de cientifico. Com relação a politização do vírus e da própria hidroxicloroquina, é lamentável que seja desta forma.

Antes falávamos que todo brasileiro é um técnico de futebol. Eu diria que hoje todo Brasileiro é um farmacologista, pesquisador, e palpiteiro de plantão. Inclusive o Presidente. Todos tem uma opinião pronta com relação a como lidar com o covid19, ao que fazer com o isolamento, a politizar uma questão tão séria. O vírus não é de esquerda ou de direita! É um vírus! Pode matar quem é contra ou a favor de qualquer espectro político. Considero uma verdadeira imbecilidade esta politização.  E isto não é bom, é péssimo para todos nós, pois as vezes até “obriga” o médico a usar medicamentos sem a menor base teórica e sem a menor chance de ter o benefício o alvo de nossa atenção, o paciente. Não podemos receitar porque o amigo ou parente acha que funciona, porque no facebook ele viu que funciona!  A sociedade exigiu que se colocasse a HCQ nos protocolos, e na base do desespero até médicos famosos usaram! Um tempo negro para a humanidade e para a medicina.

Mas vejamos o que nos informa, entre outras publicações de dias atrás e corroborado hoje pela JAMA:

Testaram vários antibióticos (azitromicina, claritromicina, ceftriaxona, etc), antiparasitários (ivermectina, Annita) , os mais diversos antivirais, uma dezena ao menso, cortisonas (que parece que é benéfico mesmo para alguns pacientes), imunossupressores, imunoglobulinas, sangue e plasma de pacientes curados.  Todos sem metodologia e sem metanalise direito. Tudo na base do achismo. Uma coisa horrorosa para os médicos, os que habituamos a “medicina baseada em evidencias” e não a medicina baseada no palpiteiro de plantão. Estes são aqueles que dizem: usei em 10 paciente e foi bom! Não é assim que se faz, nunca foi assim. Há que se ter estudo randomizado, duplo cego, controlado, e para ser elegante horizontal e multicêntrico. E não na galega como agora. Ou outros, mais equivocados ainda, são os que são contra por que são contra, nem sabe direito porque são contra, o isolamento social e cegos e de costas para o mundo, para o planeta que sofre e sangra.

Especificamente a HCQ parece que até funciona em casos específicos, não sendo nenhuma maravilha, nenhuma solução. Tem ação benéfica muito tímida. Estava sendo usada no mundo todo e em todos os casos. E aqui no brasil também, estava ou ainda está sendo usado de maneira quase que indiscriminado. Hoje não está mais desta forma. Alguns países como a Suécia já não usa para ninguém e nos EUA estão usando quando há pneumopatia inflamatória consistente. Na Itália o uso é ainda indiscriminado, e ve-se que não funcionou. Alega-se onde não se usa ou usa com parcimônia,que a HCQ piora o sistema respiratória, e com certeza piora mesmo. Aumenta a necessidade de oxigênio.  Aumenta a exigência dos parâmetros respiratórios. Algumas pessoas certamente morreram de cloroquina e não de coronavirus.

Mas o tratamento HOJE seria: Casos leves e leves/moderados – sintomáticos. Analgesicos, antitérmicos, repouso, dieta com bastante liquido.

Moderados/grave e graves oxigênio em cateter nasal ou por ventilação não invasiva. E nos muito graves suporte avançado de manutenção a vida. UTI. Em casos muito específicos, com pneumonia extensa e insuficiência respiratória usa-se a HCQ + AZi e corticoides (as cortisonas, sim, muda o espectro da evolução para melhor).

Claro que isto não é consenso. Há quem veja benefício da azi e HCQ em casos iniciais e leves, mas digo que estes hoje são exceções.

 E não temos UTIs e respiradores infinitos e nem quem saiba operar estas maquinas (não pensem que é só ligar um ventilador e virar as costas. Que bom se fosse desta forma). É complexo demais. Por isto o isolamento social ainda é muito importante. Por sorte em Baependi temo intensivistas excepcionais e em bom número, mas esta situação é uma raridade neste País.   

Jornal Panorama: O isolamento social é a única saída? Não seria possível reabrir todo o comércio e obrigar toda a população o uso de máscaras nas ruas? O uso de máscaras caseiras tampando o nariz e a boca previne 100% da transmissão do vírus?

Doutor Edson: O isolamento social ainda é importante para continuar não tendo nenhum caso. Mas acho, ai reamente é uma opinião estritamente pessoal, que estamos no finalzinho deste lockdown, por termos feito tudo certo até agora. Penso que nas próximas semanas começa a afrouxar o nó da gravata. Foi com muito sacrifício da população, dos comerciantes a quem temos que render nossas homenagens eternas, e com muita coragem dos gestores que fizeram o correto, para colocarmos agora  tudo a perder. Mas imagino que em poucos tempo, muito pouco teremos abertura gradual do comercio. Temos que ter confiança nos gestores da Secretaria Municipal e Estadual da Saude que sem duvida foram muito compententes. Basta olhar o que acontece com nossos vizinhos em São Paulo e no Rio de Janeiro e o que acontece com a gente aqui ao lado, para ver quem fez o certo.  O uso de mascaras ajuda muito. Mas não é o suficiente. A própria mascara se manuseada de forma errada pode ser um vetor de transmissão. Nesta segunda etapa talvez seja útil todos ainda usarmos mascaras. Mas sabendo que é um EPI que reduz a transmissão mas não de maneira 100%

Jornal Panorama: Qual a importância do fechamento de todo comércio em cidades como Baependi que ainda não apresentou nenhum caso? A tendência para os próximos dias são medidas ainda mais duras em relação ao fechamento do comércio ou a tendência é que a rotina da cidade volte ao normal logo?

Doutor Edson: Como frisei, pelo perfil da pandemia em nossa região, imagino que daqui para frente a tendência é ir afrouxando paulatinamente, com segurança as medidas de isolamento. Mas há que esperar, ainda, novos dados epidemiológicos e de evolução em nossa região. Minas Gerais foi um estado muito espeto, muito tempestivo nas tomadas de decisões. Estamos de parabéns. Mesmo em BH, em cidades maiores, com maior densidade demográfica é sempre mais difícil, mas até lá estamos correndo bem. Apenas 13% de ocupação de UTI! E não tem outra forma: esperar as diretrizes da secretaria de saúde que em as informações técnicas.

Jornal Panorama: Para finalizar. O que todo mundo quer saber é quando teremos a vida de volta ao normal. É possível fazer alguma previsão neste sentido?

Doutor Edson:

Ninguém sabe o quando teremos nossa vida normal de volta, ninguém no mundo tem esta resposta. É uma situação inteiramente nova, é um vírus totalmente novo, não temos parâmetros para comparação. Diria que voltamos a vida social normal quando tivermos uma vacina eficaz e segura. Mas a maior parte dos epidemiologistas consideram que o isolamento vertical (só dos idosos e grupos de risco) pode ser finalizado em outubro. E o isolamento horizontal a partir de maio, dependendo da região.

Sou do grupo de risco. Sou idoso, obeso, hipertenso, médico.  Teimoso. A pergunta seria se eu vou tomar os medicamentos, se eu vou manter o isolamento horizontal. Não vou manter o isolamento horizontal porque sou um asno. Deveria. Vou usar EPIs e ter cautela.

 E com relação a HCQ, Azitromicina, Cortisona, Creolina, Erva Santa, ivomec, se eu próprio adoecer. Ai já não é mais comigo; não vou opinar, prometo. Vou seguir sem direcionar, sem interferir, sem opinar, o que o Dr. Amicis, o Dr. Henrique, o Dr. Calu e a equipe do UTI (Nhá Chica não permita) se precisar. Sei que estarei em ótimas mãos na minha Baependi.