O Jornal Panorama dá sequência na série de entrevistas com o médico Doutor Edson Libanio. A entrevista foi dividida em três partes para levar a melhor informação até aos leitores. Ontem, entendemos melhor sobre as vacinas que estão sendo desenvolvidas pela comunidade científica. Hoje o papo será sobre as questões políticas envolvendo o novo coronavírus. Para encerrar, amanhã (17), o Doutor Edson vai explicar o impacto do novo coronavírus na região.

O governador de São Paulo, João Doria e o Presidente Jair Bolsonaro vem se desentendo publicamente sobre as estratégias para conter o coronavírus

O presidente Jair Bolsonaro vem defendendo o uso da cloroquina para pacientes com o novo coronavírus. Na contramão do que vem pregando o presidente, o Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, é cauteloso da eficácia do medicamento e já alertou sobre os riscos da aplicação da medicação sem acompanhamento médico.

A discussão do remédio tomou conta do ambiente político em Brasília e o JORNAL PANORAMA foi entender melhor sobre esse medicamento e as consequências que essa disputa política pode levar para a comunidade cientifica.

Segundo o Doutor Edson Libanio, os estudos não são tão animadores em relação a cloroquina.

”Os estudos recentes têm se mostrado frustrantes com relação a cloroquina e mesmo com relação a outros antivirais. Já testaram vários medicamentos de forma empírica, é o que temos, hoje, de científico”, explicou o médico.

A politização entorno do medicamento é uma preocupação de autoridades da área da saúde. Um medicamento só é autorizado a ser usado quando tem seu benefício provado cientificamente. Segundo o Doutor Edson, é preocupante para todos essa pressão extra científica que vem acontecendo.

”Antes falávamos que todo brasileiro é um técnico de futebol. Eu diria que hoje todo brasileiro é um farmacologista, pesquisador e palpiteiro de plantão. Inclusive o presidente. Todos têm uma opinião pronta com relação a como lidar com o covid-19, ao que fazer com o isolamento, a politizar uma questão tão séria. O vírus não é de esquerda ou de direita! É um vírus! Pode matar quem é contra ou a favor de qualquer espectro político. Considero uma verdadeira imbecilidade esta politização.  E isto não é bom, é péssimo para todos nós, pois às vezes até ‘obriga’ o médico a usar medicamentos sem a menor base teórica e sem a menor chance de ter o benefício o alvo de nossa atenção, o paciente. Não podemos receitar porque o amigo ou parente acha que funciona, porque no facebook ele viu que funciona!  A sociedade exigiu que se colocasse a HCQ nos protocolos, e na base do desespero até médicos famosos usaram! Um tempo negro para a humanidade e para a medicina”, contou o Doutor Edson.

Segundo artigos publicados no JAMA (Jornal da Associação Médica Americana), vários antibióticos foram e estão sendo testados. O Doutor Edson alerta do perigo para a comunidade médica esta situação, já que muitos medicamentos estão sendo testados sem evidências, mas sim baseados em achismos. O Doutor falou sobre os tempos sombrios que a medicina vem sofrendo.

”Testaram vários antibióticos (azitromicina, claritromicina, ceftriaxona, etc), antiparasitários (ivermectina, Annita) , os mais diversos antivirais, uma dezena ao menos, cortisonas (que parece que é benéfico mesmo para alguns pacientes), imunossupressores, imunoglobulinas, sangue e plasma de pacientes curados.  Todos sem metodologia e sem metanálise direito. Tudo na base do achismo. Uma coisa horrorosa para os médicos, os que habituamos a ‘medicina baseada em evidências’ e não a medicina baseada no palpiteiro de plantão. Estes são aqueles que dizem: ‘usei em 10 pacientes e foi bom!’ Não é assim que se faz, nunca foi assim. Há que se ter estudo randomizado, duplo cego, controlado, e para ser elegante, horizontal e multicêntrico. E não na galega como agora. Ou outros, mais equivocados ainda, são os que são contra por que são contra, nem sabe direito porque são contra, o isolamento social e cegos e de costas para o mundo, para o planeta que sofre e sangra”, explicou Edson Libanio.

Ainda sobre a Hidroxicloroquina, segundo informou o Doutor Edson, ela até funcionou em alguns casos específicos, mas não sendo nenhuma solução definitiva para a doença. O medicamento está sendo usado em todo mundo com resultados pouco atrativos até o momento.

Remédios Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil

”Especificamente a HCQ parece que até funciona em casos específicos, não sendo nenhuma maravilha, nenhuma solução. Tem ação benéfica muito tímida. Estava sendo usada no mundo todo e em todos os casos. E aqui no Brasil também estava ou ainda está sendo usado de maneira quase que indiscriminada. Hoje não está mais desta forma. Alguns países, como a Suécia, já não usa para ninguém, e nos EUA estão usando quando há pneumopatia inflamatória consistente. Na Itália o uso é ainda indiscriminado, e vê-se que não funcionou. Alega-se onde não se usa ou usa com parcimônia, que a HCQ piora o sistema respiratório, e com certeza piora mesmo. Aumenta a necessidade de oxigênio.  Aumenta a exigência dos parâmetros respiratórios.

Algumas pessoas certamente morreram de cloroquina e não de coronavírus. Mas o tratamento HOJE seria: casos leves e leves/moderados, sintomáticos, analgésicos, antitérmicos, repouso, dieta com bastante líquido. Moderados/grave e graves, oxigênio em cateter nasal ou por ventilação não invasiva. E nos muito graves, suporte avançado de manutenção à vida, UTI. Em casos muito específicos, com pneumonia extensa e insuficiência respiratória, usa-se a HCQ + AZi e corticoides (as cortisonas, sim, mudam o espectro da evolução para melhor).

Claro que isto não é consenso. Há quem veja benefício da AZI e HCQ em casos iniciais e leves, mas digo que estes hoje são exceções.  E não temos UTIs e respiradores infinitos e nem quem saiba operar estas máquinas (não pensem que é só ligar um ventilador e virar as costas. Que bom se fosse desta forma). É complexo demais ”, desabafou o médico.

Isolamento Social

O isolamento social vem sendo adotado em praticamente todo mundo para conter o avanço da doença. Segundo o Doutor Edson Libânio, é possível pensar que estamos chegando ao fim deste lockdown completo. Apesar das brigas políticas envolvendo governadores, prefeitos, empresários, ministros e o presidente, o Doutor acredita que estamos no caminho certo para vencer esse vírus.

“O isolamento social ainda é importante para continuar não tendo nenhum caso. Mas acho, aí realmente é uma opinião estritamente pessoal, que estamos no finalzinho deste lockdown, por termos feito tudo certo até agora. Penso que nas próximas semanas começa a afrouxar o nó da gravata. Foi com muito sacrifício da população, dos comerciantes – a quem temos que render nossas homenagens eternas – e com muita coragem dos gestores que fizeram o correto, para colocarmos agora  tudo a perder. Mas imagino que em pouco tempo, muito pouco, teremos abertura gradual do comércio. Temos que ter confiança nos gestores da Secretaria Municipal e Estadual da Saúde, que sem dúvida foram muito competentes. Basta olhar o que acontece com nossos vizinhos em São Paulo e no Rio de Janeiro e o que acontece com a gente aqui ao lado, para ver quem fez o certo.”

Vários municípios já estão adotando o uso obrigatório de máscaras em ambientes públicos. As máscaras diminuem a chance de contágio pelo novo coronavírus, segundo especialistas, mas o Doutor Edson alerta que não é suficiente para conter totalmente o vírus.

Foto: Tyrone Siu

“O uso de máscaras ajuda muito. Mas não é o suficiente. A própria máscara se manuseada de forma errada pode ser um vetor de transmissão. Nesta segunda etapa talvez seja útil todos ainda usarmos máscaras, sabendo que é um EPI que reduz a transmissão mas não de maneira 100%.”

Amanhã (17), vamos entender como o Sul de Minas Gerais vem trabalhando a questão do coronavírus nos municípios que ainda apresentam poucos casos confirmados da covid-19.