Hoje faz uma semana que voltei ao Rio de Janeiro. Estive no sul da Amazônia, sem contato algum com o mundo externo, num trabalho com os índios isolados Suruwaha, Medio Purus. Sem ter ideia do que estava acontecendo no mundo.

No dia 23 de março, num dos quatro dias do retorno, à noite, depois de um dia inteiro dentro de um barco voadeira, pelo rio Purus, chegamos à cidade de Canutama e íamos aportar num posto flutuante. Avisados que não podíamos descer, pois a cidade se encontrava em quarentena, fomos recebidos pela Polícia Federal e por uma equipe médica, todos mantendo distância. “Se afastem por favor”, dizia o policial sem tirar a mão do coldre da arma. Agora entendo a reação dele.

Eles nos contaram o que estava acontecendo no Brasil e no mundo, um informe geral depois de tantos dias sem contato, soubemos que não era apenas aquela cidade que estava em quarentena, era o mundo inteiro. Foi assustador e surreal saber tudo de uma vez só depois de passar tanto tempo na floresta, fomos de encontro ao caos após estar numa terra sem males. Eu não conseguia parar de pensar na família e amigos, mesmo sem ter a real dimensão do que se passava no mundo.

Os índios Suruwaha ficam insolados, no Sul da Amazônia
Os índios Suruwaha ficam insolados, no Sul da Amazônia Foto: Paulo Mumia

Depois de explicarmos que estávamos isolados há muitos dias numa área com risco zero de contaminação, para não assustar a cidade, nos escoltaram gentilmente dentro da viatura até um hotel que nos recebeu.

‘Éramos alienígenas chegando à Terra’

No dia seguinte, bem cedo, prosseguimos viagem. Éramos alienígenas chegando à Terra e numa fase não planejada da viagem, o nosso difícil e complicado retorno em tempos de pandemia. Ainda tínhamos mais um dia de barco pelo rio Purus até chegar a cidade de Lábrea. Em Lábrea, todos os hotéis estavam fechados e tivemos que conseguir uma autorização para nos deixarem ficar no hotel, com a promessa que sairíamos até quinta. Depois disso: rua! Ou ruas, que estavam em quarentena e com toque de recolher.

Vôos cancelados

Não sabendo o que fazer caso não conseguíssemos seguir viagem, pensei até em atar minha rede na praça e ver no que ia dar. Essa cidade só tem dois voos por semana, ambos cancelados, fecharam a cidade, ninguém sai nem entra. Conseguimos com a Funai de Lábrea um carro oficial que nos levou, através da Transamazônica, para Porto Velho, onde pernoitei antes de encarar três escalas de avião para chegar em casa.

‘Saí dos isolados e continuo isolado’

Queria descobrir que tudo era um pesadelo e bastava acordar e o mundo seria como antes. Mas eu vivia um pesadelo acordado. O meu Rio de Janeiro de ruas desertas e um silêncio que desconheço. Eu só queria estar em casa. Saí dos isolados e continuo isolado.

*Paulo Mumia é fotógrafo do Museu da Funai

Fonte: Jornal Extra