A notícia de que um estudo de cientistas da Universidade de Turim, na Itália, constatou que muitos pacientes internados por conta do novo coronavírus apresentavam baixos níveis de vitamina D no organismo reacendeu o debate a respeito da importância dessa vitamina para o corpo —e, especialmente, sua influência na nossa imunidade.

De acordo com os pesquisadores, a vitamina D não seria capaz de impedir a infecção pelo vírus, mas, como atua modulando a reação do sistema imunológico, poderia fazer com que a doença não se agravasse.

Considerada por alguns especialistas como um hormônio (já que o nosso corpo é capaz de sintetizá-la), a vitamina D é um nutriente (já que pode ser encontrada em alimentos) lipossolúvel mais conhecido por ser essencial no processo de retenção de cálcio e fósforo, itens essenciais para a saúde dos nossos ossos.

Nos últimos anos, no entanto, os cientistas descobriram que outros órgãos do corpo possuem receptores para ela, indicando que seu papel na nossa saúde vai além do esqueleto. Estudos já mostraram, por exemplo, que a vitamina D pode reduzir o crescimento de células do câncer, pode ajudar a controlar infecções e reduzir a inflamação do corpo.

Vitamina D e imunidade

Embora a abordagem do estudo italiano seja nova, a busca pela relação entre vitamina D e sistema imunológico não é nova: há pelo menos 10 anos essa relação já vem sendo estudada. Há duas possibilidades sendo analisadas: a modulação das células de defesa, que receberiam um impulso com o nutriente; e como a vitamina teria relação com doenças autoimunes, como esclerose múltipla e diabetes tipo 1.

Os médicos aprofundaram os estudos para entender, especificamente, se a carência de vitamina D poderia facilitar ou piorar a resposta do corpo diante de infecções respiratórias. Um estudo feito pela Harvard Medical School em 2009, publicado no periódico JAMA Internal Medicine, mostrou que adultos com deficiência no nutriente disseram sofrer mais de gripe, resfriado ou infecção no trato respiratório superior.

Em outro estudo, dessa vez uma metanálise publicada em 2017 no periódico BMJ, os pesquisadores concluíram que a suplementação de vitamina D em indivíduos com deficiência ajudaria a reduzir os riscos de infecções no trato respiratório. O efeito foi observado com mais força especialmente nos pacientes com níveis muito baixos do nutriente.

Mesmo assim, ainda é cedo para dizer que a vitamina D seria importante no combate à infecção respiratória provocada pelo novo coronavírus. “Os dados são, sem dúvida, importantes, mas ainda precisamos de mais evidências dessa relação”, afirma a médica nutróloga Marcella Garcez Duarte, professora e diretora da ABRAN (Associação Brasileira de Nutrologia).

A própria Harvard School of Public Health afirma que mais pesquisas precisam ser feitas com a vitamina D para dizer definitivamente se ela protege contra resfriados, gripes e outras infecções respiratórias agudas, em especial a covid-19.

Quem precisa suplementar?

Apenas 10 a 20% da quantidade de vitamina D que necessitamos é obtida por meio de alimentos. Os demais 80 a 90% necessários originam-se da exposição à luz dos raios ultravioletas (UV) do sol, que vão estimular a produção pelo corpo.

Em tempos de quarentena, quando estamos mais dentro de casa, essa exposição acaba ficando mais difícil. Mas isso não significa que é preciso correr para a farmácia atrás de suplementação. “A menos que a pessoa já esteja em tratamento por conta de uma deficiência já diagnosticada, não há motivo para preocupação”, afirma a especialista.

Isso porque os resultados da deficiência de vitamina D, que incluem alterações ósseas e osteoporose, só aparecem depois de um longo período de deficiência. Ou seja: algumas semanas longe do sol não serão suficientes para provocar uma deficiência grave no corpo. Além disso, o excesso de suplementação por algum tempo também tem efeitos negativos: ele pode levar a um aumento de cálcio no corpo, provocando calcificação de artérias e lesão nos rins.

Por isso, a recomendação oficial é que a suplementação seja feita apenas depois de um exame de dosagem para garantir que o nutriente está mesmo baixo e também para avaliar qual a dosagem necessária.

Na dúvida, Duarte recomenda conversar com um médico de confiança remotamente para tirar as dúvidas e, no máximo, tomar um polivitamínico. “E, definitivamente, com os serviços de saúde sobrecarregados pelo novo coronavírus, este não é o momento de pedir esse tipo de exame ou sair de casa para isso”, avalia.

Como garantir um bom aporte de vitamina D no isolamento?

De acordo com a nutricionista Clarissa Fujiwara, coordenadora de nutrição da Liga de Obesidade Infantil do HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), a vitamina D pode ser encontrada em peixes gordurosos, como salmão, atum e sardinha, bem como em fígados de outros animais.

Consumi-los, então, seria uma forma de garantir algum aporte do nutriente. “Há ainda alimentos que são fortificados com o nutriente, como leites e cereais”, afirma.

Mesmo assim, é importante tentar manter uma rotina para expor alguma parte do corpo ao sol todos os dias. “Até os presos têm esse direito”, lembra Marcella Garcez Duarte. A recomendação é expor pernas e braços ao sol, diariamente, por até 15 minutos, no período das 10h às 15h —o horário considerado melhor para obter os benefícios dos raios UV.

A nutróloga ainda lembra que, na quarentena, a exposição ao sol tem outro benefício: a manutenção da saúde mental, já que a luz solar também ajuda a aumentar os níveis de serotonina no corpo.

Foto: IStock
Fonte: UOL