Os jornais brasileiros adotaram, a exemplo das organizações de notícias de outros países, uma série de medidas que garantem aos leitores coberturas especiais sobre os impactos do coronavírus COVID-19 no Brasil, além das notícias internacionais. A tarefa, entretanto, vem acompanhada de outro desafio tão necessário quanto informar: garantir a proteção dos jornalistas e todos os demais profissionais e, com isso, contribuir para minimizar os índices de contaminação no país. Por isso, as redações do país trabalham neste momento com o maior número possível de pessoas no sistema de home office e, nos casos em que isso não é possível, dentro de uma rotina muito diferente da qual os jornalistas estão acostumados, com esforços redobrados em relação aos protocolos de segurança da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O Grupo Estado, que edita o jornal O Estado e S.Paulo, por exemplo, determinou a redução imediata do trabalho na sede da empresa, na capital paulista, ampliando a quantidade de pessoas que neste momento trabalham de casa para diminuir a circulação pela cidade. Em outra frente, as reuniões foram reduzidas ao mínimo necessário. Neste momento, o diário tem 60% dos seus jornalistas trabalhando de forma remota.

No portal UOL, do Grupo Folha, também com sede em São Paulo, as equipes que não estão envolvidas na cobertura do coronavírus trabalham em rodízio, com metade das pessoas em casa e a outra, na redação. Há um sistema especial também para os jornalistas envolvidos nas reportagens sobre o COVID-19. Nesse último caso, novamente em rodízio, dois terços ficam na redação, enquanto os demais permanecem em casa. No jornal Folha de S.Paulo, do mesmo grupo, o modelo adotado é semelhante ao do UOL.

O jornal Folha de S.Paulo tomou medidas semelhantes, com o objetivo de reduzir ao máximo o número de pessoas dentro da redação. No Rio de Janeiro, em comunicado à redação, o jornal O Globo traçou diretrizes para garantir a continuidade do trabalho de informar os leitores e também manter os profissionais saudáveis, assim como seus familiares. 

Acesso remoto

A primeira da série de recomendações – que serão atualizadas conforme o avanço da situação – é para que as pessoas que apresentaram febre, tosse ou dificuldade para respirar, mesmo que os sintomas sejam leves, fiquem em casa, avisando imediatamente a seu gestor e ao setor de recursos humanos. O profissional receberá orientações sobre como proceder.

O objetivo do jornal é buscar o máximo possível de trabalho em casa. A prioridade é para pessoas acima de 60 anos, gestantes, doentes crônicos e com doenças preexistentes, “mas todos devem conversar com seus gestores sobre a possibilidade de trabalho remoto e sobre o acesso aos sistemas de publicação”, diz o comunicado.

Por isso, o jornal intensificou o acesso remoto – que surge como outra preocupação para as organizações de notícias, uma vez que as redes de banda larga residenciais podem não ser capazes de acompanhar a alta demanda daqui para frente. Os acessos pedidos para o VPN já estão sendo criados, e desde a terça-feira (17/3), a equipe de tecnologia passa de editoria em editoria para tratar das configurações de acesso remoto e tirar dúvidas.

Proteção máxima também nas ruas

Folgas e férias estão limitadas em O Globo. As viagens internacionais estão suspensas, enquanto as nacionais foram restringidas, inclusive a ponte aérea. “Cada caso deve ser discutido com os editores e a mesa central, e só será liberado o que for urgente”, diz o comunicado. Quem viajou para o exterior não deve retornar imediatamente à empresa, mesmo que não tenha sintomas de coronavírus, cumprindo quarentena. Essas pessoas precisam cumprir quarentena de 14 dias após a data de chegada ao Brasil.

A agenda de eventos da empresa em março e abril de O Globo foi suspensa. Além disso, a participação dos jornalistas em eventos públicos ou coletivos será evitada, e exceções serão decididas com editores e a mesa central, afirma o comunicado. “Os profissionais que forem circular serão orientados sobre segurança e, quando for o caso, usarão itens de proteção”.

A higiene está reforçada, para que todos lavem as mãos e/ou passem álcool gel com frequência. Nos banheiros da empresa, há instruções visíveis sobre higiene das mãos. E há dispensers de álcool espalhados pelas nossas instalações. A empresa também está reforçando a higienização do ambiente de trabalho. O jornal pede para que não haja contato pessoal. “Nada de beijos, abraços e apertos de mão. Enquanto houver coronavírus, cumprimentos devem ser à distância.”

Impressão é desafio pontual

No jornal Correio*, da Bahia, a direção definiu que parte da equipe cumpra uma jornada de trabalho home office como parte das ações para tentar conter o crescimento do número de casos de COVID-19. Parte da equipe de jornalismo, marketing e áreas comerciais trabalha de casa. Também foi pensado um esquema de rodízio para reduzir a circulação de pessoas na empresa.

“Repórteres e equipe exclusiva do digital não estão vindo para a redação, e nosso objetivo é mandar todo mundo pra casa. Zero redação”, diz Linda Bezerra, diretora de redação do Correio*. Nesse esforço, provavelmente o maior desafio será a operação do impresso, considerada mais complexa para todos os editores de jornais e revistas, como a editora Abril.

Na terça-feira (17), a empresa decretou home office, até mesmo para os designers, autorizados a levar os desktops fixos para casa. Para o fechamento mensal da revista Claudia, por exemplo, foi montada uma operação em que dois designers se revezarão no fechamento para ir à redação apenas no momento de inserir o conteúdo final na rede conectada à gráfica. Eles terão o transporte pago pela empresa para evitar transporte público.

Quase todas as revistas da Abril rodarão em uma gráfica terceirizada, em Juiz de Fora (MG), em uma ação que estava decidido antes da pandemia. Apenas Veja e Veja SP continuarão sendo impressas na gráfica de São Paulo, informa a empresa.

Cuidado especial com os grupos de risco

No Ceará, parte da equipe do jornal O POVO está em home office e trabalho remoto, incluindo todos os com mais de 60 anos e doenças pré-existentes – que devem permanecer atuando em casa ou terão férias antecipadas. Neste momento, apenas o pessoal de imagem (foto e vídeo) e design trabalha de forma presencial, mas em horários diferenciados para manter reduzido o número de pessoas circulando.

Algumas áreas editoriais modificaram suas pautas principais. É o caso do pessoal de Esportes, área na qual os principais eventos estão suspensos, trabalha com cobertura mínima no impresso e no on-line.

O sistema de home office também é o perseguido pelo Jornal do Commercio, de Pernambuco. A partir desta quinta-feira (19), metade da redação já deverá trabalhar de forma remota.

Fonte: Associação Nacional de Jornais

Foto: Reprodução