Vamos entrar em um período bastante conturbado em nossa vida social: chega a temporada de eleições municipais. Aqui em Baependi em particular mas em todas as cidades da região de modo geral, o comum e rotineiro é o acirramento e a radicalização, em maior ou menor intensidade. É comum “brigas” ou brigas mesmo entre famílias e amigos que se tornam ex-amigos. E a política vira um sofrimento, um pesar. Passei por isto, sei como é.

E as crianças como ficam? Devemos envolve-las no processo político eleitoral? Ou melhor, podemos evitar que se envolvam neste processo?

Vou dar minha opinião, como Pediatra e estudioso do comportamento infantil.

Falar muito cedo de temas como democracia e escolhas políticas, do porque este é o candidato ideal e não o outro, pode ser prematuro e absolutamente desinteressante aos pequenos. Até os 11, 12 anos, a criança está muito interessada no que está no seu entorno, no grupo de amigos, na escola e na família. Por outro lado como pais somos responsáveis pelas crianças, não só por sua segurança física mas também emocional, de formação humana. No momento em que se opta por inserir a criança em protestos, em comícios e em carreatas por exemplo, você tem que prepará-la para isso e lidar com os momentos posteriores. É preciso uma disposição para o diálogo, para a escuta, perguntar o que ela entendeu do que viu, esclarecer dúvidas.

Acompanhada do diálogo, não vejo problemas de uma apresentação do posicionamento da família, caso esta seja uma demanda dos adultos. Na verdade as vezes é inevitável que a criança saiba por motivos óbvios.

 Mas ao explicitar a criança este posicionamento político da família, deve vir com uma linguagem acessível, que a criança compreenda bem, e o mais importante: que a mensagem recebida pela criança sempre sublinhe a valorização da tolerância. E estímulo ao respeito a diversidade às outras opiniões. Respeitar e tolerar como natural que o seu coleguinha de classe pense diferente e tenha outro posicionamento. Que a família do coleguinha ou do vizinho tenha outra diretriz.

É preciso ter cuidado para não se apresentar a opinião da família como uma verdade e indiscutível para todos (pois não é assim). Como se qualquer coisa que ‘‘não fale a língua da gente’’ esteja errado. Respeitar as diferenças é parte da educação. Sendo assim estamos fazendo uma prevenção de traumas, stress, inimizades precoces e sofrimentos evitáveis.

Como o modelo para criança são sempre os adultos, o convite é para que nós mesmos tenhamos esta mesma postura de tolerância e respeito aos “adversários” políticos. O benefício é de todos enquanto cidadãos. Mesmo porque é incoerente falar uma coisa e fazendo exatamente o contrário: no discurso dizemos que é preciso respeitar o outro, mas o tempo inteiro os pais são transgressores. As crianças são muito críticas e observadoras, percebem a diferença no discurso e na ação.  Os filhos precisam de uma coerência, de harmonia, rotinas… Este tipo de ambiente é importante para criar valores para os filhos, valores esses que depois sim, permearão a atividade política.

Então conclamo os Pais a terem atitudes adultas, coerentes, tolerantes e de respeito ao divergente no processo que se virá a seguir.

As crianças agradecem.

Dr. Edson Lopes Libanio é o atual Presidente da Regional Sul da Sociedade Mineira de Pediatria (pela 5º vez). É diretor Médico da Clínica Baependi. Foi diretor algumas vezes da Sociedade Mineira de Pediatria e da Sociedade Brasileira de Pediatria. Foi Auditor Medico do Ministério da Saúde por 30 anos. Foi Pediatra da SES MG. Tem inúmeros outros cargos classistas em sua história de vida, desde Diretor Clinico do HCMR algumas vezes até da diretoria da AMMG. Mas gosta de ser apresentado mesmo como um Pediatra do interior.